Etiquetas

Dificilmente vou conseguir escrever um texto objetivo sobre “Prometheus” – o melhor filme de Ridley Scott em muito tempo (ainda que cheio de problemas) -, então o melhor é apresentar objetivamente tudo que pensei durante e depois da sessão do filme:

1. Primeira coisa que me chamou atenção é a construção dramática, o ponto mais frágil do filme. Para cada questão emocional, Scott parece encontrar uma solução que não escape o catálogo do seu cinema (lembranças de equívocos como Gladiador virão a mente) – e são opções simples demais. A pior delas é a do clímax, com o sacrifício da tripulação.

2. As questões existenciais que o filme explora só funcionam como combustível para as ações dos personagens (a relutância de Elizabeth Shaw em se manter presa ao seu crucifixo, no entanto, não deixa de ser belíssima), nunca como arestas – as próprias perguntas se esvaziam (e pior, durante o próprio filme, caem em redundância). Se pensarmos num 2001 ou até num A Árvore da Vida (filme que nem gosto muito) a coisa se torna ainda mais escassa.

3. Uma das cenas de violência me parece totalmente descolada da construção narrativa. Sem função alguma, ela está ali apenas para criar ação dentro da duração do longa.

4. Todas as cenas de horror são incríveis e ajudam e muito na construção da ambientação do filme (de longe a melhor coisa que ele possuí). Toda a sequência da cesariana/aborto me parece extremamente bem construída – inclusive o fato de que Elizabeth está sem o seu crucifixo durante o processo.

5. Mesmo sendo apenas funcional, o clima de terror é construído com gosto. É como se ele construísse toda a atmosfera de pavor com a simples intenção de mergulhar tudo em violência gore (lembre aí de Guerra dos Mundos, do Spielberg, todo projetado à serviço da construção de humores e ação). Ponto pro cinema aí.

6. A melhor coisa é que, mesmo para que não viu o prelúdio dirigido pelo próprio Ridley Scott (ou as continuações de James Cameron e David Fincher), a coisa toda é bem acessível.

7. Ainda que Ridley tente passar a impressão de um épico à Blade Runner (afinal, quase toda a publicidade dos filmes do sujeito dão a entender de que se trata de um projeto gigantesco), não há nada de muito ousado aqui. Nem nos efeitos CGI, nem no roteiro, nem nas questões filosóficas. O que sobra da estratégia é a forma fascinada como ele exibe a paixão do ser humano por encarar o desconhecido.

8. Talvez o ponto mais importante: a grande atuação de Michael Fassbender (que a essa altura podia interpretar uma porta e ainda assim seria genial). Melhor do que em Shame, o ator constrói um personagem dúbio, que só ajuda a atmosfera de terror e dúvida que o filme gera (e a sua personalidade vai ganhando cada vez mais lacunas conforme narrativa e clima avançam). Ele é também uma expectativa dentro do filme. E é dele a cena antológica do longa.

(Prometheus, EUA) de Ridley Scott. 2012. B+