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Na época da estréia de Sweeney Todd li diversas críticas que tentavam colocar Tim Burton entre os diretores que, depois de uma penca de bons filmes, não conseguiam mais encontrar novos caminhos para as próprias marcas autorais. “Mas é só um musical do Tim Burton” diziam. Não estou nesse grupo, no entanto. Acho que o longa do barbeiro demoníaco está entre os grandes filmes da carreira do diretor. O erro viria no seguinte.

Alice no País das Maravilhas parecia um portfólio de tudo que poderia sair errado num filme de Tim Burton e, devido a um inocente olhar, nunca havia acontecido. E o pior, era um daqueles produtos de encomenda que nunca saem do lugar – mesmo quando totalmente atrelado à Warner (no caso dos Batmans dos anos 90), ele nunca havia feito algo tão vazio.

É muito comum entendermos os piores filmes de um autor, justamente aqueles em que não conseguimos encontrar suas marcas. Mas como acontecia em Inquietos de Gus Van Sant, este está longe de ser o problema dos novos filmes de Tim Burton. O início deste Sombras da Noite deixa isso bem claro: lá está a fotografia escura convivendo com personagens sensíveis.

O que acontece de errado então? Acontece que ele plastifica num filme terrível uma série de detalhes que fazem parte de uma filmografia belíssima. É muito comum diretores se utilizarem de certas histórias para fazer uma espécie de resumo da própria carreira (é um pouco o que acontece em Os Homens que Não Amavam as Mulheres do Fincher e em Gran Torino do Clint Eastwood, dois belos filmes), mas aqui a coisa simplesmente não se justifica.

O Barnabas de Johnny Depp é uma mistura da sina maldita de Edward Mãos de Tesoura e o humor ácido de Willy Wonka (não por causa de sua atuação, mas sim da própria construção do personagem). Aqui está a desilusão amorosa capaz dos atos mais brutos (que não vai surpreender nadinha que assistiu A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça). E lógico, dentro da casa dos Collins convivem em perfeita harmonia dois extremos: o monstruoso e o terno.

Como eu disse, está tudo lá amarrado a um roteiro que quase não respeita as paixões de Burton – aproximando-se quase sempre do kitsh. E agora, com o mesmo pesar de quem criticava Sweeney Todd, percebo como Burton, infelizmente, está dando voltas nos mesmos lugares de sempre.

Apesar de abrir várias sub-tramas melhores do que o próprio contexto central do longa (a disputa entre Barnabas e Angelique), ele não mergulha em canto algum. Os dois melhores personagens quase não são explorados: os verdadeiros protagonistas são os que possuem uma deformação ao seu lado e um passado cruel; Vicky e David.

O pior de tudo é a construção do final. Um montante de frases feitas que funcionariam caso estivessem atreladas a algum conceito do longa. Mas, infelizmente, só mostram a preguiça de um diretor que parece enfim caminhar na direção de todas as críticas que se faziam a seu respeito.

(Dark Shadows, EUA) de Tim Burton. 2012. C