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Existem filmes que tratam de temas importantes afim de se esquivar do simples fato de que não possuem nenhum comentário sobre o próprio cinema. O contexto parece ser mais importante do que o próprio jogo cinematográfico.

Escolher um grande tema é tarefa fácil, não deve demorar mais do que dois minutos olhando a primeira página do jornal (tantos temas urgentes: África, a crise econômica, a violência urbana e etc) ou um livro de história mundial (tantas guerras, reis mesquinhos, grandes revoluções) para encontrar algo importante para retratar.

O sensacional da história toda é quando o cineasta percebe que não importa exatamente sobre o que ele fala, mas sim como ele comunica o tema que lhe interessa. E é aí que Repulsa ao Sexo se introduz como um filme essencial dentro da filmografia de um diretor que já tocou em temas delicadíssimos (como o holocausto, por exemplo).

Sem se preocupar em mergulhar em grandes discussões sobre o estado mental da personagem interpretada por Catherine Deneuve, Polanski escolhe dar ao filme a forma das alucinações e fixações de uma mulher que simplesmente não consegue ter contato íntimo com homens.

O filme passa a ser importante não pela análise dessa mulher, mas sim pela forma como ele nos joga num mundo de horror. A vontade é a de fazer o espectador sentir-se tão confuso quanta a personagem.  E, junto com Deneuve, ficamos trancafiados dentro de um apartamento que mais parece um labirinto (as próprias dimensões do lugar são imprecisas, crescem e diminuem sem aviso prévio).

O longa evoluí ao ponto que já não sabemos mais o que é real e o que é projeção da mente doentia da protagonista. Por isso o primeiro ato é fundamental; no silêncio de um menina tímida e reclusa (numa interpretação igualmente silenciosa de Catherine Deneuve), Polanski encontra uma improvável psicopatia.

Da metade para frente caímos de cabeça num pesadelo de horror psicológico. Com cenas de estupro que, em pleno silêncio, nos mostram apenas o suficiente. Depois de uma longa empreitada pelo universo da personagem e por sua aversão ao sexo oposto, chegamos a um plano final aterrorizador: um olhar de assombro que nos diz mais do que qualquer explicação didática.

(Repulsion, EUA) de Roman Polanski. 1965. A