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Se esse filme fosse assistido como um espetáculo muito direto de ideias narrativas e visuais, seria impossível acreditar no romance de Juliette e Jean. Mais adiante, seria ainda mais complicado entender os motivos para ela retornar a um sujeito tão ciumento como o comandante do barco Atalante. Mas, dentro das concessões poéticas de Jean Vigo, tudo não passa de mero contraste.

Dentro da realidade criada pelo diretor francês, do momento que Jean vê Juliette nas águas do canal de Paris, não existe mais espaço para dúvidas: o amor dos dois é maior do que qualquer deslize comportamental ou desavença passada. O que nos permite voltar a outras imagens do filme e entender o comportamento nada real de père Jules (o estranho velho marinheiro que viaja com eles) ou o casamento que mais parece um velório.

Acontece que o próprio cinema se permite certas concessões, aceitando que o seu próprio apego ao terrestre, transcenda à um conjunto de imagens que, ainda que críveis, são muito mais alegorias do que vivências. Tudo e nada é real em O Atalante. Quando Juliette conhece o quarto de père Jules ela não só está se comunicando com uma criatura que a assusta, mas conhecendo um mundo inteiro, um velho lobo do mar que já viajou por muitos lugares.

O Atalante é um filme que se expressa por um viés de impacto. Cada movimento dentro do filme não só representa o contraste que Vigo quer estabelecer entre bruto e belo, mas também tentativa de criar um painel de rimas visuais: quando pére Jules luta contra si mesmo no topo da embarcação ou quando Juliette flutua sobre o barco numa paisagem noturna. A principal cena é aquela em que a montagem coloca os corpos dos dois amantes em um jogo de movimentos parecidos, ambos violentados pela crise na relação e pela saudade. É tão erótica quanto bela – e aí está de novo a dualidade de Vigo.

A história nesse sentido parece muito menor do que as intenções do diretor. É aquele caso em que o roteiro apenas fornece o contexto para o autor produzir as armas necessárias para criar não uma narrativa ideal, mas uma soma de impressões e sentimentos. Uma sopa de sensações. E não nada mais moderno do que isso. Vigo está muito mais interessado no que os seus personagens representam para a realidade que criou, do que como eles funcionam dentro dos limites do roteiro. E é isso que faz de O Atalante uma obra-prima.

(L’Atalante, França) de Jean Vigo. 1943. A+