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Walter Salles tem de novo a joia de um geração em mãos. Sem o passado mítico para omitir os lugares onde o seu cinema não consegue chegar, o que sobra ao diretor é a labuta de filmar uma passagem crua, tão rudimentar quanto a forma como seus personagens se movimentam pelas estradas norte-americanas.

As legendas das cidades estão aí para ser como os personagens, apenas enunciados de características primitivas. E não dá para falar em busca por autoconhecimento, mas numa incansável volta ao que sempre foram, caricaturas de um geração impulsiva.

Da trama original esperávamos essa crueza e aspereza; Kerouac estava ali. De Salles deveria haver um comentário, mas o que se apresenta a todo momento é um registro insípido, transparente, condescendente com algo que ele nunca experimentou na pele. Ou pior, o que seus olhos levaram ao cérebro é só um conjunto de imagens de jovens se aproveitando das facilidades do sexo e das drogas para caminharem rumo ao nunca. Salles não vê só o cinema como um conjunto de praticidades, mas interpreta o que leu como uma máquina de informações.

Como road-movie, “Na Estrada”, não passa da velocidade limite. Em nenhum momento Salles pisa no acelerador para prestar o papel de leitor preocupado com a selvageria e a estupidez dos personagens (ainda que haja sim alguma tentativa de colocar a mão na cabeça de tipos tão pequenos). As pistas que ele escolhe nos levam a curvas simples, decisões monótonas, a uma seleção de locações que minimizam as coisas: tudo só seria mesmo uma vontade juvenil por aventura?

“Na Estrada” é uma caminhada às vezes vibrante, às vezes erótica, às vezes incansável, mas sempre inofensiva; ausente de qualquer particularidade por aquilo que algum momento deve ter encantando seu diretor.

(On the Road, EUA/Brasil) de Walter Salles. C+