5. Yoshimi Battles the Pink Robots – The Flaming Lips (2002)

“I don’t know where the sun beams end and the starlights begins it’s all a mystery” (em Fight Test)

O Flaming Lips gravou discos muito ousados em toda a sua existência. É uma banda bizarra porque não se agarra ao usual e porque seu líder, Wayne Coyne, joga no time de Thom Yorke e John Lennon, nunca se conforta com o que tem em mãos. Yoshimi não dá continuidade ao que a banda fez no fim dos anos 90, mas cria uma espécie de híbrido entre rock e eletrônica, com violões que mais parecem bits de computador. Trata-se de um combate nada justo entre uma heroína das mangás e um legião de robôs rosas. Louco? Não exatamente. A poesia pode, num primeiro momento, soar um tanto desprendida do real; no entanto, está aqui um disco feito para a humanidade. “Did you realize that hapiness makes you cry?” perguntam quase incrédulos. Yoshimi não é nada mais do que um ópera sobre nosso cotidiano. Um disco que celebra coisas comuns como se fizesse parte de um gigantesco show de marionetes. A sonoridade grandiosa (com violinos, passeios regados a ambient-music e melodias que mais parecem epopeias) dá o tom da brincadeira: como seria o comentário de uma banda de rock vinda de outra dimensão sobre o nosso mundo? Yoshimi Battles the Pink Robots tenta nos responder isso de forma quase sucinta. Triunvirato: Do you realise??, Fight test, Yoshimi battles the pink robots.

4. Agaetis byrjun – Sigur Rós (1999)

Enquanto outros discos de pós-rock foram se mostrando cada vez mais parte de um grupo bem definido, a obra-prima do Sigur Rós – distante dos demais – nos fazia discutir a importância da percepção pop. É disco de um tempo. Um disco sobre um tempo. Diferente de outros contemporâneos que tentavam dialogar com o homem e sua paranoia moderna, Agaetis byrjun (ou o álbum com o feto de anjo na capa, como gosto de chamá-lo) tenta renovar nossa visão de perfeição e equilíbrio. Depois do punk, o que viria? Qual seria o novo formato da música pop? Jónsi nunca caminha para o refrão, nunca ritmiza versos, sua voz é apenas e tão somente um instrumento. Mais difícil do que traçar uma lógica para a voz de Jónsi é tentar definir o som: um cruzamento de eletrônica, ambient e música clássica? Dream-pop? Neo-Jazz? Pós-rock espacial? É mais do que isso, aqui a banda islandesa constrói um manto atmosférico que recobre todo o disco e pouco a pouco vai estudando o formato das canções – de uma simples repetição à densidade de um esparso efeito sonoro. Se nos anos 70 e 80 o punk e pós-punk nos ensinaram a fazer pop com barulho, o Sigur Rós ensinou aqui a fazer pop sem se utilizar da usual estrutura. A capa já explicava: sonhos para aberrações. Triunvirato: Starálfur, Ný batterí, Svefn-g-englar.

3. Ok Computer – Radiohead (1997)

“There’s no alarm and no suprises now” (em No surprises)

O grande resumo da música dos anos 90 está em Ok Computer. Um disco que empilha temas do pós-punk, do gothic rock, do pós-rock, do rock alternativo, separando aquilo que só estala, daquilo que faz estrondo. As canções, no entanto, recusam paradigmas: começam como surtos, terminam como canções de amor. Iniciam como uma canção de ninar e terminam num inferno de guitarras. E há, claro, as que se tornam pedidos de ajuda. Simples pedidos de ajuda. Acima de tudo, estamos diante de um disco que anunciava o fim de um era – e parece ridículo falar disso hoje, mas a virada do século significava, naquela época, tudo e nada. Daí que Ok Computer é, além de um retrato do homem e do seu desgaste do mundo moderno, um grande portfólio dos nossos medos. Um retrato desses animais que comem comida congelada e beijam com saliva, que desconhecem a si mesmo (Karma police), temem mostrar seus segredos ao mundo (Subterranean homesick alien), eternamente presos ao circulo tedioso de suas rotinas (No surprises). Mais do que o estudo, o que nunca desatualiza esse disco enorme é forma humilde como Thom Yorke trata tudo como um infinito quebra-cabeças montado para um mundo em pedaços (e a bateria quebrada de Airbag não está lá por acaso). O melhor é perceber que, mesmo com a ditadura das maquinas, o abandono emocional ainda é capaz de destruir o mundo como se tudo dependesse de nada menos do que a catarse de um refrão. Triunvirato: Paranoid android, Let down, Climbing up the walls.

2. Ys – Joanna Newsom (2006)

“I cannot keep the night from coming in” (em Cosmia)

Joanna entrou para o grupo de artistas que nos faziam repensar tudo que havíamos ouvido até então com a estréia, o também ótimo The Milk-Eyed Mender (2003). Diferente de tudo que se fazia na música na época, o disco nos apresentava uma compositora clássica, uma harpista de vocal nada acessível (quase escrachando a perfeição técnica de uma Amy Winehouse). Ys pega tudo que havia de miraculoso naquele disco e transporta para um universo barroco, um conto de 55 minutos sobre uma jovem apaixonada por antigos romances e por imagens fantásticas. Newsom se afastava do pop, mas criava uma narrativa que nos aprisionava como um refrão (e os arranjos circulares de Van Dyke Parks conduziam magistralmente os surtos da jovem). Mais do que um obra-prima sobre um universo particular, um dos poucos discos dos últimos anos que nos faz repensar o que entendemos por beleza. Newsom pode ser um compositora clássica (ela afinal cresceu ouvindo ópera e jazz, folk e música erudita), mas não há nada de clássico na sua voz. Num universo repleto de cantoras que tomavam a canção como forma de explorar seus dotes vocais, Newsom olhava para frente: sua voz era apenas um elemento narrativo, dando ritmo à poesia que ia surgindo pouco a pouco. Um disco raro, inimitável. Um portfólio da imaginação incansável de uma artista única. Triunvirato: Cosmia, Emily, Only skin.

1. Kid A – Radiohead (2000)

“I’m not here, it isn’t happening” (em How to dissapear completely)

Kid A é um disco tão importante para a história da música que é difícil falar dele sem comentar a evolução da internet, do MP3, da nova adaptação tivemos que sofrer para aprender a ouvir música nos tempos de Kazaa e LimeWire. A virada do século era sim um conto de terror, mas diferente da guerra contra a máquina travada em Ok Computer (1997), o disco definitivo do Radiohead entende que para o novo-mundo que ia surgindo era necessaria negociar com certos dialetos. Mais do que a sonoridade – uma espécie de jazz-rock com inclinações eletrônicas – me impressiona como a banda conseguiu importar toda a paranoia moderna para dentro das canções. Kid A é um disco que invade nossa privacidade. Foi o primeiro a se adaptar ao esquema de compartilhamento, foi o primeiro a se implantar no século XXI como a fúria de quem encontra partes reaproveitáveis em todos os cantos. Dos interlúdios que caminham a catarse premeditada (In limbo), aos arranjos que apitam o pós-tudo (How to dissapear completely). Da metralhadora eletrônica de Idioteque aos saxofones decadentes da robótica The National Anthem. O Radiohead captava o mundo como um infinito saco de possibilidades, era como sintonizar numa rádio terrestre administrada por alienígenas. Um disco que ironiza tudo e todos, como se nos apontasse o dedo a todo momento para dizer que não havia nada a temer, ao menos esteticamente. Yorke abria a década com um disco que deixava para trás todos os tiques do rock, do pop, do indie, do jazz, da eletrônica. O que eram os gêneros senão particulas? E soa irônico quando ele nos avisa lá pelo fim: “We’re not scaremongering, this is really happening”. O mundo acabava antes de começar. Triunvirato: Idioteque, Optimistic, Every thing in its right place.