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Minha história com o The XX começa no fim da década passada. Era o ano do Animal Colletive e do Dirty Projectors. Bandas excessivamente criativas. Me lembro de ter feito uma cara debochada quando ouvi os primeiros (cuidadosíssimos) riffs que abrem XX (2009). “Essa é a banda mais amedrontada que já ouvi” comentei com alguns amigos. Voltei ao disco quase um ano depois. E agora lhes explico o erro que cometi.

Naquela época eu ainda tinha certo apreço por bandas que usufruíam demais dos seus dotes técnicos. O tempo passou e, por sorte, li os blogues certos, ouvi discos melhores, conversei com pessoas que me ajudaram a perceber o furo que existia naquela forma que eu me aproximava de música. Passei então a ter um apreço por bandas que conseguiam soletrar para mim as regras da música pop quase debochadamente.

O The XX tinha tido uma dessas percepções naquele remoto fim de década. O pano-de-fundo do rock inglês estava tomado pelos excessos bandas que viram nos cacos do Radiohead (após a explosão de Kid A) a chance de soar igualmente eufórico com o novo mundo – estávamos diante de ambições a Oasis, realizadas por bandas que não compreendiam a diferença entre o vibrante e o didático (e o Muse talvez seja a pior delas). O rock inglês mergulhava-se em riffs quilométricos, referências múltiplas, descontrole, letras apocalípticas e muito pouca unidade.

A estréia do The XX fazia um comentário sobre o nosso tempo. Sem demostrar a paixão (são quase frívolos afinal) o trio escreveu onze lovesongs que funcionavam como recados em post-its: “love, I think we’re superstars” brincavam em VCR. O riffs curtos não estavam lá por acaso, a vontade era de mostrar uma precisão econômica completamente ausente naquele cenário. As canções ganhavam forma e calor conforme deixavam suas influências de soul e eletropop trilharem os caminhos escuros que tomavam, e não o contrário. Nascia uma sonoridade alegoricamente sexy, mas também muito silenciosa porque, como ninguém no rock, Jamie XX conhecia os prazeres do silêncio e da suposição.

Você pode entender o meu erro. Erro que não cometerei com o novo disco da banda, Coexist. Um disco que, veja lá, não devemos mais interpretar como um comentário pop. Pelo contrário, devemos encará-lo como a continuação de um trajeto, de um ideário construído no primeiro disco. Angels (o primeiro single) nos dava uma pista: uma lovesong construída do puro nada, com riffs curtos, secos e melancólicos; e, claro, lá estava o romantismo da madrugada: “if someone believe, they will be as in love with you as I am”. Lá estava de novo uma sonoridade que beirava o dream pop, o pós-rock, bebericando de sub-gêneros da eletrônica (IDM e algo de dubstep), sem que se definisse perfeitamente por nenhum desses estilos.

No geral, Coexist funciona como um movimento bastante previsível do The XX, principalmente para quem acompanhou os experimentos de Jamie XX (o cérebro do grupo) nos últimos dois anos. Acontece algo semelhante ao que acontece em Bloom do Beach House (um dos meus favoritos desse ano): assistimos uma banda encontrar novos contornos para um estilo particular.

Na essência é um disco que recolhe a matriz da estréia e aplica sobre ela uma nova cartelas de cores (tudo que havia de cinza em XX agora ganha uma tonalidade). O som da banda recebe um novo mundo de ideias – absolutamente todas centradas na figura de Jamie XX, o geninho da eletrônica. Perambular pelas canções – mesmo com poucas audições – é encontrar um maestro orquestrando duas vozes por entre percussões muito delicadas e bits que remetem a diversos cantos da eletrônica (Reunion, por exemplo, vai a Espanha e resgata o balearic beat de artistas como John Talabot e Delorean).

Mais do que as novas referências, me impressiona como Jamie parece ter dominado perfeitamente o contraste que existe entre o dialogo feminino/masculino dos vocalistas e o restaste dos elementos do The XX. A impressão que fica é que o maestro é tão perfeccionista que nenhum acorde está lá de graça. Repare, por exemplo, como ele administra o sonzinho psicótico de Try (que faz referência à eletrônica usada em faixas do Lil Wayne). Ou como ele abre espaço entre os pianos e baixos de Swept Away (que reprisa o jeitão de I’ll Take Care of U, canção feita por ele para o disco de remixes do Gil Scott-Heron em 2011) para a única interpretação dramática de Romy XX na história da banda – acaba quase como uma faixa tradicional de R&B; é a melhor do disco.

O senso de auto-ironia e de pós-humor segue marcando o compasso da banda. “We use to be closer than these” cantam os dois num dueto sacana que não leva o título de Chained por acaso. E aí está a grata noção de que a banda nunca confunde romantismo com platonismo barato. O que nos faz pensar que toda atmosfera é construída cuidadosamente no estúdio. A ideia é que possamos acessar os personagens das canções por um retrato simples, talvez a imagem de um quarto escuro com a chuva batendo gentilmente contra a janela. Só isso e já somos capazes de adentrar aquele mundo irreal – isso sem antes tomar consciência de que esse romantismo estúpido também mora dentro de nós.

A ideia é tão forte que termino o álbum (depois de um bateria de audições) e só consigo imaginar os integrantes no escuro com apenas um feixe de luz manchados seus rostos. É um caso cada vez mais raro na música pop este das bandas que conseguem criar uma misè-en-scène perfeitamente desenhada. No caso de Coexist, fico feliz de ter voltado atrás na minha decisão e ter encontrado uma banda tão ciente do nosso tempo. Um grupo de garotos que possuem definições totalmente particulares de rock, de soul, de R&B, e que são capazes de expressar essas interpretações sem nos violentar com muitos solos, gritos e letras rocambolescas. A simplicidade e a dúvida – como nos melhores romances da vida – valem a brincadeira toda.