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Como se desativasse todos os artifícios usuais do seu cinema, Tarantino vai atrás do que há de mais simples na sua arte: os diálogos, os comentários sobre a cultura pop, a violência crua. Ainda que suas homenagens tomem espaço na tela (no caso aqui ao cinema de baixo orçamento), o que vemos no tempo exemplar do longa é o reflexo de um artista em contato direto com singelezas das próprias artimanhas. Aqui temos Tarantino brincando de Tarantino.

À Prova de Morte é também um daqueles exemplares sem gordura – cada cena existe para algum propósito. Numa comparação esdruxula, é o Psicose de Quentin Tarantino. Daí fica fácil entender porque ele pouco se importa com o desenvolvimento psicológico do personagem de Kurt Russel. Aqui ele é um típico outsider tarantiniano, um assassino comum marcado para morrer. E para um filme que não quer explicar nada, é mais do que suficiente.

O fundamental é perceber que, mesmo sem as milhões de referência e recortes, o cinema do nosso cinéfilo favorito funciona assim, apenas como uma grande exemplar de ação e exploitation. A maioria das cenas retratam movimentações comuns à sua rotina cinematográfica (conversas de bar, conversas em carros, conversas e mais conversas) de forma a ressaltar o que há de mais fundamental ali: a presença de um diretor apaixonado pela atmosfera que uma câmera curiosa é capaz de criar. Só assim pra explicar como uma cena de lap-dance pode ser tão interessante; menos o erotismo (quase ausente nos filmes de Tarantino) e mais a graça na brincadeira.

(Death Proof, EUA) de Quentin Tarantino. 2007. A+