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Olhar político de Amantes Constantes a luz de A era dos extremos de Eric Hobbsbawn

Os principais destaques da Revolução Cultural pós-Segunda Guerra foram protagonizados pelos jovens. Ao ponto que, amaldiçoados pela eminência de um confronto, tudo era feito a fim de viver o agora – sempre distante do mundo adulto. O maio de 68 emerge entre os grandes momentos da cultura jovem, pois, segundo Hobsbawn, encontrou-se expressão intelectual, ressaltada pela força panfletaria que assolava as ruas de Paris. Aquela geração não se alinhava à ideologia hippie, mas a exacerbação da liberdade total para uma juventude criativa e loucamente apaixonada.

Philippe Garrel filma as noites das barricadas como sonhos pichados de preto-e-branco. As imagens que surgem na tela são tão idealizadas quanto as idealizações dos jovens. Hobsbawn, no capítulo, destaca o principal slogan do momento, que o filme faz questão de materializar: “Tomo meus desejos por realidade, pois acredito na realidade de meus sonhos”. O que torna possível explicar porque durante um combate com a polícia, os jovens se dividem entre aqueles que lançam pedras contra os carros em chamas, e os que se beijam. Como bem destaca o historiador inglês, não importava o efeito daquilo que realizavam, mas sim o que sentiam durante.

A liberação pessoal e social permitia aos jovens expor sua rebeldia perante toda forma de controle: dos pais, dos vizinhos, da lei, das convenções sociais. Garrel encontra essa espécie de utopia do sexo e das drogas dentro das festas e reuniões que eram realizadas. No filme não há espaço para procedimentos. A atriz principal (Clotilde Hesme) pede ao namorado (Louis Garrel) para dormir com seu melhor amigo. Ele aceita, mesmo indo contra seus sentimentos, porque ali eles podiam expor sua desobediência civil num microcosmo.

Na cena principal de Amantes constantes, um grupo de meninos e meninas dança ao som de This time tomorrow do The Kinks (a catarse pelo rock n’ roll é outro pilar da revolução, como explica o capítulo 11 do livro). A música traduz todo o espírito do momento, uma imprecisão com o futuro, uma dúvida sobre estar aqui amanhã, uma apreensão simultaneamente descontrolada e melancólica. “A esta hora amanhã, onde eu estarei?” pergunta a canção. A dúvida não respondida pelo refrão é saciada por Hobsbawn ao salientar que, antes de tudo, aquele movimento era a essência do subjetivismo.

A ressaca pós-idealização acerta forte os jovens do filme. A realidade dos desejos não toma forma, não ganha asas, não altera nenhuma máxima francesa. O triunfo era particular. A curto prazo era difícil enxergar os efeitos daqueles dias. Não à toa, em pouco tempo, os personagens começam a tomar decisões mais firmes: arranjam empregos, saem do país em busca de uma nova vida, seguem em frente.

Aqueles que esperavam a ascensão de uma nova sociedade, naturalmente, sofrem. Como destaca o livro, um dos slogans empunha: “Ao pensar em revolução quero fazer amor”. Isso explica porque os personagens são capazes de suportar as coronhadas da polícia, mas não conseguem sarar as dores do coração. Ao fim do filme, fica fácil entender porque Louis Garrel, depois de conseguir fugir durante uma noite inteira da polícia sem apresentar nenhum sinal de cansaço, adoece numa cama ao ser deixado por sua amada e, literalmente, morre de amor.

AMANTES CONSTANTES (Les Amants Réguliers, 2005)
Dirigido por Philippe Garrel
França
Cotação: 100