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Quando penso sobre o que dizer sobre um disco que estou escutando repetidamente, a minha primeira alternativa é imaginar uma espécie de narrativa interna que os discos possuiriam. Eu tento tratar toda obra como uma espécie de história contada por seus autores.

Gosto de pensar nos discos como contos de uma obra maior. A cada novo conto, o escritor adiciona algum elemento que nos coloca cada vez mais próximos do clímax.  Os meus discos favoritos – dentro dessas histórias particulares – são aqueles em que o artista fica enfim o mais próximo da própria criação.

“Mas próximo em que sentido?” é a pergunta que eu acabo sempre fazendo. Aí é que está a parte bacana. Se fosse uma matemática precisa, rapidamente julgaríamos discos, filmes, livros e etc. Acontece que para cada espetáculo há uma forma de compreensão.

No caso desse Luxury Problems essa proximidade de Andy Stott vem da forma como ele consegue ditar as regras da sua eletrônica. É como se cada som que surgisse tivesse sido mil vezes testado como num processo cansativo e perfeccionista. O disco ressoa essa afirmação de poder, esse estigma de violência sincopada que o som de Stott já possuía em outros momentos. Mas vai além, encontra nessas marcas um som resplandecente, vivo, sem contaminações de gênero.

Este é um disco tão intenso que a força particular de cada canção parece sufocar a seguinte – ouvi-o várias vezes com fones diferentes e, independente de como ouço, sempre existe algum som capaz de perfurar os desenhos das canções. Trata-se do resultado de estudo e compreensão. Cada som parece ter nascido de uma experiência única.

Num contexto geral, o que acabamos recebendo é um som muito pesado (contundente mesmo) sendo misturado a outros pequenos detalhes sonoros numa simulação de repulsão e atração. Os diversos barulhos emergem, contaminam a música e desaparecem como se fossem derrotados por uma tempestade mais poderosa. As faixas se contem a todo instante como se esperassem ansiosamente a chegada de uma nova percussão ou de um baixo mais elástico.

Impressionante, no fim das contas, é como tudo parece extremamente orgânico. Como se esse poderio todo só pudesse ter sido criado por uma multidão ensandecida batendo compulsivamente em instrumentos rústicos. Sabiamente (como o Burial), Andy só usa os hooks vocais como adereços sibilantes. Não existe participação catártica neles. Em Hatch the Plan, um dos momentos mais fortes do álbum, a repetição de “dance for me” se torna um manto.

Há tanta coisa acontecendo, mas é notável como nunca nos sentimos jogados num mar de cacofonia, mas num oceano de possibilidades. Mesmo sem forma aparente, as canções se instalam e permanecessem num timing ideal. A exatidão de suas durações só ressalta a capacidade compreensão de Andy Stott.

Em cada faixa se encontra algum detalhe a se admirar com mais cuidado. Seja a linha de baixo que caminha sorrateiramente pela faixa-título, ou o drum ‘n’ bass de Up the Box e os vocais esfumaçados que funcionam como paredes sonoras de Leaving. Este é um disco duradouro, o conto na história de Andy Stott em que o artista coloca tudo que sabe em prática. Daí o porque de parecer que foi feito com muito sangue e suor.

LUXURY PROBLEMS – Andy Stott
(Modern Love, 2012)
Inglaterra