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Discutíamos esses dias, entre amigos num grupo do Facebook, a respeito de gêneros bastante específicos como o dream pop/shoegaze do final dos anos 80 e início dos 90. A conversa começou quando perguntei qual era o disco favorito de cada um tirando o exemplo óbvio de Loveless (1991) e Isn’t Anything?/You Made Me Realise (1988) do My Bloody Valentine.

Antes de responderem eu já tinha ideia dos discos que surgiriam: Souvlaki (1994) do Slowdive, Nowhere (1990) do Ride, On Fire (1989) do Galaxie 500 e etc.

Todas esses discos possuem características comuns – além de um embrião melódico muito semelhante. No entanto, quanto mais ouço esses medalhões, mais percebo que a definição que damos ao gênero possui mais utilidade quando pensamos na época que foram lançados. No fim das contas, considerá-las um pacote só é deixar de perceber os nuances de cada um.

Esse texto é uma tentativa de explicar o meu favorito entre esses álbuns sem cair em um discurso técnico e preso às estéticas do gênero.

Dito isso, conto a história. O trabalho do Slowdive é o principal pilar do meu iPod nos últimos dias. Eu descobri o disco procurando álbuns que soassem com um das minhas faixas favoritas do My Bloody Valentine (Sometimes). Quebrei a cara porque não consegui encontrar a sonoridade simultaneamente corrosiva e romântica daquela música, mas acabei encontrando um disco que se comunica quase inteiramente com a imagem que ela me passa.

Souvlaki é uma massa cinza, uma janela manchada de gotas de chuva. Um álbum de quem ainda idealiza amor e se sente atordoado num mundo muito agitado e confuso. A sonoridade funciona como uma cicatriz na pele. Ela dói e perturba os narradores das histórias – estes, tipos melancólicos, que em quase todo o álbum parecem sussurrar do meio de uma nuvem de fumaça.

Mesmo quando o manto melódico é coberto por uma camada de ruídos, a ditadura estética da banda é a da tristeza. A sensação é a de assistir um grupo de amigos tocando todos cabisbaixos: “Está tudo, estamos todos juntos” se consolam em Altogether.

No primeiro disco, o também ótimo Just for a Day (1991), os sintetizadores também ressoavam a desistência existencial deles, mas a força da percussão tornava a coisa mais agressiva – como quem acorda de um sonho perfeito e se encontra novamente com a realidade.  Aqui o contraste entre a distorção dos sintetizadores e a guitarra morosa é a linha de pensamento do Slowdive. É essa soma que nutre o som e o faz ficar suspenso no ar, frágil, mas intenso.

Nas melhores faixas vamos direto ao coração da floresta escura. Em Sing, Rachel Goswell canta docemente apática sobre um painel de efeitos eletrônicos (contribuição de Brian Eno, um dos produtores do disco, e co-autor da canção), a sensação é de ouvir uma mulher sendo puxada vagarosamente buraco abaixo. Dagger, ao contrário, não engole os vocais, mas permite a Neil Hastead o prazer de cantar livre sobre uma melodia de violão. É o momento mais delicado do disco: “você sabe que eu sou o seu punhal, você sabe que eu sou a sua ferida” revela, fragilizado.

Nas lovesongs de Souvlaki, ser o ferimento, é estar para sempre presente junto à pessoa amada. Não é questão de perversidade. Aqui, ama-se demais. É um universo de inversos, de vontade maiores do que a força moral pode segurar: “seu mundo descontrolado me empolga, Alison eu estou perdido” confessa o personagem da abertura, nos impulsionando a um mergulho definitivo num mundinho pálido, totalmente particular.

SOUVLAKI – Slowdive
(Creation, 1993)
Inglaterra