Dessa vez, resolvi não apelar tanto para as  minhas opiniões formadas sobre tudo e acabei selecionado os quinze discos que melhor se comunicaram comigo. Digo isso para não deixar mostrar que essa talvez seja a lista mais pessoal que eu fiz. Esquivar-se dessa fato, da pessoalidade disso aqui, é sem dúvida driblar o leitor. No fim das contas, é tudo muito particular.

10. Total LossHow to Dress Well

Num dos momentos mais frágeis do ano, Tom Krell submerso num nevoeiro de gelo seco revela que sente saudade de todos: dos amigos, da mãe, do pai (até da avó). Pode parecer apenas um retrato de uma artista caquético, mas não é só isso. É a tentativa de mostrar o universo de um artista entregue ao furacão da perda. É a interpretação de um universo. Nesse sentido, Total Loss é a grande apoteose do teatro de Krell: um mundo de noites frias, R&B, afetações ensaiadas e arranjos que miram o sublime. Sem as gracinhas do lo-fi, o How to Dress Well soa verdadeiramente destruído.

09. Shields – Grizzly Bear

Em Shields recebemos o resultado da compreensão de um meio-ambiente. A exemplo de um filme como O Ano Passado em Marienbad, a narrativa e o clímax são jogados para escanteio, as imagens nos fornecem o suficiente para permaneçamos em suas salas (melodias) e quartos (arranjos), observando, sem pressa alguma, suas portas e janelas (seus versos). O essencial é ver os ursos desafiando a própria métrica. Talvez nós quiséssemos um disco tão fantasmagórico quanto Yellow House, ou tão desajustado como Veckatimest, no entanto, o que eles nos oferecem é uma nova estrada, com maior apelo pop, mas com a mesma capacidade de nos lançar ao estranho, ao pitoresco; a bela e a fera.

08. Cancer 4 Cure – El-P

Ouvir Cancer 4 Cure passa sensação de acompanhar um workaholic no meio de uma semana entupida de reuniões e apresentações – e a essa altura o cara já tem mais cafeína correndo no sangue do que hemoglobina. É por isso que a coisa toda acaba soando quase séria – as faixas são sempre agressivas -, mesmo quando ele insiste que devemos “bombear essa merda como eles fazem no futuro“. A piada está incluída. Para El-P, não devemos levar os dogmas abusivos e politicamente corretos do século XXI muito a sério: é preciso rir para não se deixar engolir pela coisa toda

07. Allelujah! Don’t Bend! Ascend! – Godspeed You! Black Emperor

Entre nós desde os anos 90, impossível não olhar um disco novo (depois de um hiatus de 10 anos) do Godspeed com alguma desconfiança; o que mais um dos pioneiros do pós-rock pode nos oferecer? Sob muitas camadas de drones e ruídos, encontramos um banda ainda em estado embrionário, com ideias salpicando a todo instante. O foco, nesse caso, não é nem em trazer para as composições da banda novas influências, mas sim encontrar novas maneiras de caminhar dentro de longas canções: seja na repetição de uma distorção, seja no rastejar de um riff de guitarra ou na explosão de tensão do clímax. O que mais me impressiona é como, diferente do passado, a tentativa do novo disco é de nos manter sempre dentro do furacão. A neutralidade dos momentos iniciais poder ser lida como uma prece de despedida: boa sorte, viajantes. E de novo somos violentados por longos minutos.

06. The Seer – Swans

Conforme a narrativa avança percebo o estado da música do Swans. A banda conseguiu dar unidade a um som que nunca se multiplica ou se torna mais ágil (como numa canção tradicional de pós-rock), mas segue em frente sempre nos oferecendo um novo obstáculo – não no sentido de abrasividade, mas de densidade, de impacto. Gira nos tem na palma da mão o tempo todo. É como um filme de terror em que o diretor nos faz esperar por um susto que nunca acontece. Dentro da visão de Gira, destruir tudo é a melhor forma de começar de novo, não há espaço para correções ou evolução, principalmente quando o fim dá espaço para tanta criação.

05. Luxury Problems – Andy Stott

“Luxury Problems é um disco tão intenso que a força particular de cada canção parece sufocar a seguinte. Trata-se do resultado de estudo e compreensão. Cada som parece ter nascido de uma experiência única. Num contexto geral, o que acabamos recebendo é um som muito pesado (contundente mesmo) sendo misturado a outros pequenos detalhes sonoros numa simulação de repulsão e atração. Os diversos barulhos emergem, contaminam a música e desaparecem como se fossem derrotados por uma tempestade mais poderosa. Impressionante, no fim das contas, é como tudo parece extremamente orgânico. Como se esse poderio todo só pudesse ter sido criado por uma multidão ensandecida batendo compulsivamente em instrumentos rústicos.

04. Swing Lo Magellan – Dirty Projectors

O melhor seria chamar Swing Lo Magellan de partes de um núcleo maior: os membros de Dave Longstreth. As canções remetem à um roteiro de um passado distante (o folk, o chamber pop, o R&B), mas dirigidas por um sujeito que encontra nuances  particulares em lugares comuns. É um disco que celebra a força da melodia e que expõe as principais características de uma banda – os riffs cristalinos, as harmonias vocais das três meninas, as metáforas sobre a própria arte de se fazer música – sem necessariamente apelar para sentimentalismo. O romantismo que emana da maioria das faixas é, como a maioria dos elementos, apenas outra expressão da visão que o Dirty Projectors tem de música pop.

03. channel ORANGE – Frank Ocean

Ocean teve tempo suficiente para criar um álbum que funciona como um fim de semana na cabeça de garoto atormentado por um desejo de ser algo mais do que si mesmo. Frank vende seu peixe porque não tem medo do ridículo. A empreitada de channel ORANGE é camuflar em histórias fictícias todos as lembranças e traumas adolescentes de Ocean. Do primeiro amor à aversão aos vizinhos mais afortunados. Das partidas de vídeo-game aos intermináveis passeios pela madrugada depois de “pegar emprestado” o carro do pai. A saudade aqui não surge das referências à soul-music (e ao mainstream também, é verdade), mas da própria consciência do álbum. O resultado é um grande antídoto contra todo o verniz moderninho e auto-irônico que hoje domina o indie rock.

02. The Idler Wheel – Fiona Apple

Há muitas mulheres em Fiona Apple, talvez todas elas – o que explica porque ela é uma artista tão abraçada pelo público feminino. A moça é um portfólio do gênero. Conhece todos os dramas, sabe de todas as tristezas. Senta no pedestal porque aprendeu de tudo um pouco. E aí o porquê de sua interpretação sempre parecer acima de qualquer nota de piano. No fim das contas, o que temos é Fiona Apple limpa, seca, direta, quase escarrada. Tão desnuda que, confesso, depois de mais trinta audições sinto vergonha da intimidade que criei com o disco. É como se eu soubesse demais sobre ela.

01. good kid M.A.A.D. City – Kendrick Lamar

Section. 80 revelou o rapper criativo, buscando um som instável, meio vil, meio sexual (entre a tradição e o novo). O novo disco revela a alma literária de Kendrick Lamar. Enquanto ele passeia equilibrando-se delicadamente entre o mainstream e a âncora noventista, Kendrick encontra o som ideal para uma narrativa de ascensão e queda, de glória e decadência. Um longo livro sobre um menino de sonhos chulos (sexo, fama, dinheiro e poder) que se tornou um ás do showbusiness. Batalha, conquista, trabalho pesado; esses são os letreiros que mais chamam atenção depois da viagem percorrida por Kendrick (a música mais bonita do ano, aliás, está aqui). Tudo em good kid M.A.A.D. City se volta às concessões poéticas que a história cobra. Acima disso, o que ouço são canções de paixão e ambição, que demonstram a fúria de um rapper que jamais se esquiva.