Sem muita frescura, a vontade é apenas de ilustrar as 10 melhores faixas dentro das suas idiossincrasias e particulares. Os dez ápices do ano:

01. Half Gate – Grizzly Bear

Em Half Gate há espaço para amor (o alento da voz solitária e bela de Ed Droste) e raiva (o combate emocional que brota da suplica de Daniel Rossen). Só não há espaço para incertezas – como havia nos momentos misteriosos de Veckatimest e Yellow House. Aqui a dúvida é apenas uma arma de impacto; de desamparo. Num universo comum, a calmaria viria depois da tempestade. Para os ursos a percepção do tédio, da presença da inércia é que os leva ao turbilhão emotivo: “quiet pictures drawn each day before it ends, to remind me once again why I’m even here” suspira Droste antes do ataque de Rossen. E daí para frente, somente nuvens negras numa singular canção de extremos. (Ouça)

02. Kindred – Burial

Kindred é uma música sobre um olhar. Sobre um sujeito que é capaz de retorcer uma canção que não é sua e extrair dela frases que sustentam uma atmosfera inconstante. Mas, depois de mergulhar completamente no precipício do Burial (e dialogar com uma faixa em constante movimento), porque me impressiono com os momentos que a coisa simplesmente para? Nada de argumentos técnicos (comuns quando se fala em eletrônica), no caso, chega a ser estúpido falar de técnica quando um sujeito encontra caminhos tão simples para uma música tão gigante. (Ouça)

03. me Yesterday//Corded – Flying Lotus

As melhores canções do Flying Lotus namoram com o silêncio e com a forma como os elementos vão dando espaço um para o outro. A penúltima faixa do disco recente é um pouco diferente: se ajustando entre o espacial e o minimalista, me Yesterday//Corded leva toda a segurança milimétrica para uma zona de desequilíbrio; de contraste e delicadeza. É como se ele tivesse tentando cruzar Star Wars com Café Lumière. Deve ter nascido de experiência cientifica, mas soa como se tivesse surgido de um espasmo do universo. (Ouça)

04. Pyramids – Frank Ocean

Pyramids é uma extensão de The Morning. Ocean, no entanto, é menos conciso. A sua jornada da noite nos oferece três longas narrativas. Cada uma com suas particularidades líricas, mas todas dividindo uma mesma placa neon: sexo como fonte de distância. Com sintetizadores cafonas, o narrador põe os dois pés do R&B no selvagem reino do mainstream. O seu personagem, por outro lado, continua imóvel, preso num pornô chique com jacuzzis, champanhe e rubis. A poesia pode parecer clara, mas conforme você se aproxima, Pyramids se revela um interminável e assustador enigma: afinal, quem é o ladrão que sequestrou a rainha Cleópatra? (Ouça)

05. Sing About Me – Kendrick Lamar

Soa quase cansativa a forma como Lamar coloca todos os seus medos, seus fantasmas e suas expectativas numa única música. Porém, diferente da ambição do restante do disco, esta é uma faixa muito simples (uma percussão crua e um beat reflexivo). É como se Kendrick quisesse dar espaço para toda a riqueza da história. A chance de erro era enorme, mas acima de toda a produção, o homem (o rapper) soa como o interprete da década: machucado, mas forte; realista, mas sonhador. O disco é repleto de vontades chulas e expectativas infantis que só poderiam sair da cabeça de um menino dos ghettos. Sing About Me, no entanto, se volta ao que o personagem de Kendrick julga importante: “am I worth it? did I put enough work into it?”. Em 2012 nenhum sentimento foi mais intenso. (Ouça)

06. Give out – Sharon Van Etten

A julgar pelo movimento magnético de atração e repulsão retratado por Sharon, não é de se questionar porque esta música pareça ser tão estática. Seu corpo se move (“You are the reason why I’ll move to the city or why I’ll need to leave”), mas há uma inércia emocional que os arranjos e a melodia insistem em iluminar. Para completar a ficha técnica: Give Out é filmado com luzes frias dentro de um apartamento pequeno no centro de Nova York. (Ouça)

07. Avalanche – Just Friends

Nicolas Jaar convida Sasha Spielberg (filha do diretor Steven Spielberg) para regravar uma canção de Leonard Cohen. Se toda faixa do velhinho possuí um apelo religioso, Jaar trata de ressaltar esse particularidade. O tempo congela para a voz mórbida de Sasha ir até uma dos frases mais gélidas da história da música: “You who wish to conquer pain you must learn to serve me well”. Nicolas, aqui, só funciona como um imediato tão petrificado pela voz da moça quanto nós. Ele cria uma atmosfera assustadora (salpicando suspiros por toda parte) e pesada que se comunica perfeitamente com a faixa, mas o capitão a todo momento é a voz de Sasha. A pergunta que fica na cabeça depois de várias audições: com quantos silêncios se faz uma obra-prima? (Ouça) 

08. Nova – Burial & Four Tet

A batida 2-step do Burial funciona como o falso chão e o beat circular do Four Tet como uma porta para outra dimensão. Nova é uma canção-convite. Um mergulho de seis minutos numa sopa sensorial de mistério e precisão; surpresa e técnica. É exatamente como esperávamos de uma canção da parceira, mas, como as músicas de ambos, soa como nenhuma outra faixa já gravada. (Ouça)

09. 110% – Jessie Ware

A moça gravou algumas músicas tão boas quanto essa, mas nenhuma ri tão descaradamente das certezas dos charts que deram tanto crédito a artistas estéreis como Adele. O disco inteiro vive de um atmosfera escorregadia – uma espécie de névoa – que a produção joga sobre as pauladas pop de Ware. Porém, nenhuma se utiliza da voz da inglesa com tanta malemolência. Jessie canta correndo, seguindo um ritmo, um compasso. E na hora de despejar emoção, ela para, respira, e segue a correria. O pop e seus mistérios. (Ouça)

10. Sever – iamamiwhoami

As melhores faixas do Clams Casino parecem se desconstruir na nossa frente como se fossem tirando peças de roupa. Nesse sentido, fico com a impressão de que as melhores faixas dessas nova onda de eletrônica explodem quando estamos no limite da ansiedade, prontos para ver um corpo nu. Sever faz isso em dois momentos. O primeiro um falso êxtase, um anti-clímax. E depois um salto furioso. Atmosferas claustrofóbicas e quase eróticas, isso até o momento em que, como nunca grande faixa de hip-hop, a coisa deixa de soar a sexy e passa ser pura melancolia noturna. (Ouça)