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Burial-Truant_Rough-Sleeper

O grande vazio que encontramos nas resenhas sobre os EPs recentes do Burial é causado pelo desespero de se ouvir um som nada novo, mas muito criativo. O erro está na expectativa egoísta de que o artista esteja preocupado em inovar constantemente. Não é bem o que acontece na arte de William Bevan. Ainda está aqui a batida em 2-step, os silêncios, a atmosfera chuvosa, a síncope e o vocais distorcidos. Estamos falando de marcas essencialmente parecidas com as dos álbuns – e principalmente com as de Untrue (2007), o grande marco dele.

Kindred (2012) e este novo EP exercitam a sonoridade totalmente particular do sujeito só que em narrativas extensas, com diversas pausas dramáticas, ganchos melódicos distintos e catarses sutis. O que podemos cobrar de novo neste caso específico? As novas músicas parecem querer responder essa pergunta da forma menos direta possível. Elas acessam a matriz do som do Burial, sem se preocupar em ocupar espaços ou demarcar um território. Aquilo que acontece nos 15 minutos das duas faixas é poeira jogada ao vento.

Na primeira parte de Truant vemos uma percussão elegante sendo fatiada por interrupções dramáticas (os cortantes “I feel in love with you”) e silêncios grosseiros de quase 5 segundos – a impressão que passa é de diversos falsos finais. É uma canção muito delicada até um efeito circular (que parece um diminutivo de Loner) e uma suplica distorcida tornar o ambiente inquieto e fantasmagórico. Trata-se de um trabalho monumental de progressão narrativa – de substituição e acréscimo de elementos. E acaba como se nunca tivesse começado verdadeiramente.

A outra, Rough Sleeper, é uma obra-prima. Rima direta de Kindred, a faixa responde a elementos luminosos, como se a plantar uma luz artificial numa sala vazia. O vocal (ou melhor, o elemento vocal) quase responde a uma lógica pop, mas, como em todas faixas dele, apenas existe para a engenharia toda funcionar. Conforme ela evoluí percebemos uma estratégia nada óbvia, mesmo que ela traja todas as melhores partículas do Burial. O cume é um sibilar repetitivo de sinos que desemboca num final não menos magnífico – que talvez se trate do momento mais belo que Bevan conseguiu criar em toda sua música.

A segunda faixa funciona como um resumo da arte do DJ, uma máquina que carrega o ouvinte a um ambiente estéril de madrugadas gélidas a espera que nós forneçamos a seu coração de ferro uma soma de nossas experiências, amores e vivências. O Burial se tornou uma banda tão indefinida quanto nossa percepção dos diversos sons que permeiam o mundo – o que explica porque tudo sempre parece novo e tão imenso. Fica cada vez mais complicado dialogar objetivamente com o que se ouve nos EPs do misterioso inglês.