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Cosmópolis [Cosmopolis], David Cronenberg (2012)

Para Cronenberg, a ficção é o essencial. O teatro se explica na sua própria dimensão: é somente um teatro. Os personagens são marionetes e obedecem a movimentos pré-determinados. A sensação é de que, por trás das câmeras (com quase 70 anos e tendo dirigido mais de 20 filmes, em tese, o vovô David não tem mais medo de nada), está tudo sob controle.

Os filmes mais recentes (principalmente a obra-prima, “Marcas da Violência” de 2005) nos davam a entender que nosso herói – alucinado em outros tempos – havia chegado a maturidade sendo capaz de fazer filmes muito precisos. Por que então este seu “Cosmópolis” me parece tão assustadoramente descontrolado?

A chave para entender esse caos é assumir que, dentro da narrativa, o que temos é uma interpretação de extremos – exageros teatrais. A começar pelo contraste dos ambientes: um é estéril e controlado (o interior da limousine), o outro é colorido e vibrante (o mundo externo). Os encontros com os diferentes personagens revelam não apenas um universo de verborragia ininteligível (a palavra, nesse sentido, perturba a imagem), mas uma serie de encontros de diferentes níveis textuais: o sexo, a modernidade, a tensão sexual, a confusão, o medo, a perda.

O centro do caos é o personagem principal, o indivíduo que acumula a maior gama de poderes dentro do filme. A vontade individual do protagonista é, para Cronenberg, um ímpeto irresponsável, que só resulta em morte e caos. A sabedoria, nesse caso, é um terror – a mulher dele chega a comentar meio assustada: “você sabe das coisas, eu acho que é isso que você faz”. Saber, nesse caso, é possuir o próprio caos.

Dentro desso universo meramente gráfico (pouco a pouco, o protagonista vai ficando cada vez mais nu, despindo-se do seu “uniforme”) Cronenberg tenta encontrar algum sinal de humanidade. No livro adaptado, o personagem acaba nu, experimentando o mundo pela liberdade. No filme não resta dúvidas, não há resposta. “Eu pensei que você iria me salvar” diz Paul Giamatti (mais um monstro do longa) pouco antes de atirar. O tiro é o sinal de que essa salvação não existe. Isso é, dentro do teatro doentio de David Cronenberg.