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 Amor [Amour], Michael Haneke (2012)

A definição do dicionário para experiência: (ação ou efeito de experimentar; conhecimento adquirido pela prática da observação ou exercício: ter experiência. Ensaios, tentativas para verificar ou demonstrar qualquer coisa: fazer uma experiência). Michael Haneke conhece esta definição. Ele sabe que o processo inteiro – do primeiro segundo de escuridão ao elevar das luzes – funciona sempre através da força motriz de um fetiche. Uma prática, um culto, uma busca por prazer.

Antes de um competente manipulador, o austríaco é um ótimo observador do caos humano (se quiser pode chamá-lo de babaca, prefiro vê-lo como um mero espectador). Seus filmes são feitos para a plateia. Ele espera muito de nós, os senhores e senhoras observando nas cadeiras, estáticos, presos durante duas horas numa sala escura e sem distrações (no melhor dos cenários, é claro).

Cada vez mais tenho certeza de que ele se interessa mais pelos efeitos das suas imagens, do que pela construção visual em si. O que justificaria um filme feio como este. Feio porque divide com os seus personagens a desconstrução da idade, os horrores da doença e a certeza da morte. Alguns podem chamar de crueza, mas se este fosse mesmo um filme natural e direto, não haveria tanta disposição para nos machucar ou impressionar, a tristeza surgiria do próprio silêncio. O filme de Haneke, por outro lado, berra.

As imagens nos transmitem certezas duras sobre a vida e a morte. São códigos de dor e cansaço que atropelam nosso fetiche pelo realismo que surge na tela. A experiência de Amor não consta na sua carga imagética, mas sim na duração da experiência externa. Não podemos deixar o cinema. No escuro, sem a ação de propaganda ou barulho, somos obrigados a testemunhar duas horas de uma marcha cruel. Dessa vez, a violência gratuita se projeta não nos personagens, mas nos senhores e senhoras sentados no escuro.