“This is the car at the edge of the road,
There’s nothing disturbed, all the windows are closed,
I guess you were right, when we talked in the heat,
There’s no room for the weak, no room for the weak”

(Day of the Lords – Joy Division)

Motorway, Cheng Pou-soi (2012)

Motorway repete planos. Melhor, repete ideia de planos. E, em hipótese alguma, nos oferece um plano resposta (um contra-plano, por se dizer). Não há muitas verdades no filme. Também não há grandes dúvidas. Em destaque, somente o carro mais forte, o melhor piloto, o homem mais distinto. Como na Inglaterra viçosa,  suja e anárquica do Joy Division, nas ruas de Motorway, não há espaço para os fracos. Os fracos ficam presos aos obstáculos, submissos a vielas e curvas.

A narrativa depende dessa afirmação, desse machismo estilístico  Quase sem querer, este se torna um filme musculoso. Um filme de ação sobre carros sendo pilotados; e às vezes, somente às vezes, sobre homens que pilotam carros. Os homens, é claro, estão dentro dos veículos, pilotando o enredo. O drama existe para servir a ação, nunca o contrário. O filme de Pou-soi é um registro de movimentos: de invenções, de imaginação, de criação de tensão.

O desenvolvimento dos personagens não é excluído, mas se torna quase totalmente refém do registro. O protagonista (um jovem que se torna policial para correr legalmente) se transforma numa máquina de ultrapassar obstáculos. É claro, o enredo trata de entregar-lhe um mestre, um alguém para almejar. E, obviamente, um vilão para vencer. Seus motivos não importam desde que o filme avance e o obstáculo seja vencido para que um novo seja colocado.

Não à toa os carros surjam como verdadeiros monstros. A imaginação de Pou-Soi os coloca para travar batalhas nas ruas, em descidas e vielas. E, para cada combate, há uma solução erguida por um movimento. O teatro do final não podia ser melhor: um desafio no escuro, com curvas apertadas e fortes impactos. O Nissan branco se torna um fantasma numa aula de tensão.

Motorway é um filme seco, tão direto e bem podado que, no fim das contas, o que mais fica na memória são os planos de pés e mãos exercendo suas funções dentro dos carros. O homem acaba como uma máquina funcional do cinema. O movimento é o fetiche único e a ação é o elemento primordial.