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Certa vez um amigo me disse que toda vez que ouvia o rádio – e não eram poucas vezes, afinal ele era obrigado a ouvir durante todo o caminho para o colégio – ele precisava de um antídoto para tudo que há de maligno na música. Eu não sei sobre que música ele falava especificamente – ele podia ter que ouvir uma rádio evangélica ou algo do tipo, vai saber -, mas se eu pudesse escolher um disco para me livrar de  todos os males do mainstream seria este novo do Justin Timberlake.

A começar que a própria imagem do ídolo pop serve para o propósito. Tendo feito parte uma boy band famosa (o NSYNC) e ter tido por um longo tempo a imagem associada a uma lógica apenas de glamour e holofotes, Justin acabou sendo visto por uma geração (da qual faço parte) como apenas mais um ídolo teen: o homem bonito e nada talentoso. No máximo imaginava o cara nadando num mar de cartas de fãs.

Mas Justin provou o contrário. Cresceu, fez a barba, vestiu um terno e bateu de frente com as críticas. Venceu a própria imagem e também se fez através dela. Ele é tão clichê quanto é original. Mas, acima de tudo, se provou um bom ator e, principalmente, um grande músico.

O queridinho da América pareceu entender que seu histórico dava margem ao que ele podia representar. Ou melhor, atuar. “I bring the sexy back” ele avisava no começo do disco de 2006 – numa das suas músicas que, se não é das melhores dele, serve perfeitamente para ilustrá-lo. Quem ouvia o resto do disco, no entanto, encontrava coisas diferentes. Encontrava o artista em sintonia com a própria música. O trovador moderno e descrente. O modelo de comercial de perfume fã de Michael Jackson. O emulador de Prince que guarda um rancor dos amores perdidos. “What goes around, comes around” ele avisava, meio triste, meio furioso.

Timberlake, com ajuda do produtor Timbaland, criou uma sonoridade perfumada, falsamente ousada e sempre, sempre incrivelmente sexy. No caminho, revisitava cuidadosamente alguns dos melhores clichês do R&B, da Soul Music e do Gospel. Ele não apenas colava ideias, mas as retorcia, brincava, ridicularizava. Com FutureSex/Lovesounds, ele ajudou a estabelecer uma onda de cantores de R&B preocupados mais com suas músicas do que com seus vocais e refrões.

Se o comprimento do disco de 2006 acabava apontando as suas falhas e excessos, as 10 concisas faixas de The 20/20 Experience não nos deixam escapar em nenhum minuto. “Shake, like you got something to prove” comanda em Let the Groove Get In. Fora a metalinguagem, interpreto isso como um aviso: o pé está na pista de danças, o cérebro nas canções. Não há quase momentos de relaxamento, Justin está sempre usando as ideais ao limite, explodindo canções que podiam conter facilmente 3 ou 4 minutos em longos 7 ou 8 minutos. É como se ele cuspisse na cara da precisão simetrica do mainstream.

Sem refrões simples ou dramaticidade excessiva, quando o sujeito vai ao vocal cumpre o papel de interpretar a canção. Parece idiota dizer isso, mas quando pensamos em um estilo tão histérico como o R&B, logo lembramos de gritos exagerados e interpretações aos frangalhos – do tipo que impressionariam os jurados do The Voice, mas não levantam um pelo sequer do meu braço. Justin representa o que a situação pede. É irônico e sexy em Suit & Tie. Usa falsetto na entoada falsamente romântica de Pusher Love Girl. Vai junto aos solavancos (com gritos e aceleração) com o mantra alucinado de Let the Groove Get In.

Timbaland segue o ator de perto. Diferente do que vemos num disco de Hip-Hop, a faixas não nos acertam com violência, elas vão sutilmente se acolchoando. É como tomar uma pancada de um travesseiro. Dói, mas é macio. Mesmo com 8 minutos, a sensação que fica é de um processo de mastigação. Os dois vão se ajustando dentro das longas durações. Ora explorando quase psicoticamente os samples e as batidas, ora se enfiando num ritmo poderoso.

Tunnel Vision, por exemplo, começa com a repetição curta de um sample vocal que diz “I know you lie”, aos poucos vai ganhando um percussão crua e um som de beatbox. A voz de Justin só entra quando a sala já está toda arrumada. E o sujeito é tão versátil que a impressão é de ouvir duas vozes diferentes. A melhor do disco, a obra-prima Let The Groove Get In, vai por um caminho diferente. Começa quase como um ritual tribal, adiciona camadas e mais camadas à percussão (tive que ouvir diversas vezes para perceber tudo que é criado), mas dessa vez a voz dele entra como se desse continuidade ao fervor ritualístico. A última, uma balada belíssima, nos dá o gostinho do que aconteceria se Radiohead fosse uma banda romântica – e tivesse um vocalista menos perturbado.

Justin é complacente. Não desiste das ideias. Se tivesse criado a pior faixa do mundo, certamente a levaria debaixo do braço ao fim do mundo. Nesse sentido, lembra muito os poemas cantados de Bob Dylan. Não há vergonha em esticar ao limite. Não há porque olhar para trás quando se confia demais no próprio produto.

A imagem novamente afirma: não existe humildade no mundo pop. A cabeça sempre está erguida. As mulheres sempre te querem. O dinheiro nunca falta. Mas o que fazer quando a luz dos holofotes machucam os olhos?

Disco em questão: The 20/20 Experience – Justin Timberlake (2013)