Em breve, vocês verão um chuva de resenhas que tentaram prová-lo que Overgrown – o novo álbum do compositor britânico, James Blake – é um dos melhores discos do ano, talvez o melhor.

Eu poderia estar entre esses sujeitos monótonos e apaixonados (afinal, esta poderia ser uma crítica sobre o álbum), que devem ter gastado tanto tempo quanto eu ouvindo e ouvindo o disco novo. Eles devem ter se impressionando com a levada de hummings em Retrograde. E com a percussão seca, típica de hip-hop, em Life around here. Quem sabe tenham se emocionado tanto quanto eu, quando a voz de Blake surge toda fragilizada no meio de Digital lion.

Quanto mais eu o ouço, mais tenho certeza. Este é outro grande disco do jovem. Então, porque hoje, pela manhã quando o sol brilhava no céu, ele me parecia o álbum mais bobo do universo?

Eu não acordei diferente. Foi uma manhã completamente ordinária. Eu acordei por volta de 8 horas. Conversei com o edredom e o travesseiro por cerca de meia hora. Até que, enfim, acordei. Li emails e mensagens no Facebook. Abri o Twitter e vi gente comentando sobre a morte da Dama de Ferro. Bebi leite e comi pão. Voltei ao quarto e li algumas páginas de Juliet, naked.

Nada de especial.

I don’t wanna be a star,
but a stone on the shore;
Long door, frame the wall,
when everything is overgrown.

Há noites em que eu me sinto perdido dentro de um disco de atmosfera pesada como é esse Overgrown. E são noites também totalmente comuns. Vejo filmes, leio alguma coisa na internet, converso com amigos pelo Facebook, me irrito com alguma bobagem no Twitter. E, claro, ouço discos completamente distraído.

Mas há algo sobre noites vazias… Em dias chuvosos, então, não preciso nem comentar.

Talvez, por isso, não devamos levar a música pop tão a sério.

Quando eu vejo um desses escritores de resenhas semanais se esforçando para encontrar grandes significados em discos, eu sinto uma pena enorme. Eu só consigo imaginar um cara chegando em casa – um apartamento “quarto e sala” muito apertado – exausto e sem o menor saco para discutir com a namorada sobre como foi seu dia ou como o atendente do Subway trocou seu sanduíche de frango com teriyaki por um de peito de peru com queijo amarelo.

Aí eu imagino esse cara no alto dos seus trinta anos depois de ouvir 50 discos iguais e caricatos no trabalho, apertando o play no recém vazado álbum do James Blake. É quase babaquice pensar isso, mas acho que o cara deve ter uma realização nos seus ouvidos. Acho que lá no refrão de Retrograde (“So show me why you’re strong, we’re alone now, we’re alone now”), esse adulto que cresceu ouvindo Radiohead e Joy Division, deve ter apertado os fones contra os ouvidos e deve ter agradecido a meio mundo.

E aí, quando sentou em frente à tela fria do computador deve ter pensado: “Cacete, como eu vou explicar tecnicamente isso?”. Numa parte genial de Juliet, naked (o livro que li pela manhã), o protagonista tem uma realização ao ouvir um disco. Ele percebe que grande arte é tão incrível porque nos faz esquecer do nossos problemas, das nossas idiossincrasias e nos traz de volta para o que amamos.

Eu chego a dar risada quando encara um texto em que o sujeito vem me dizer que o disco é particularmente genial porque o artista renova os seus temas, dialoga com a cultura tal ou o seguimento tal. Eu sei que é necessário dizer isso. Mas não há nada sobre Overgrown aí. Overgrown, o efeito. Overgrownm a memória. Overgrown, o instante.

Part time of this life round here
We never done…
Everything feels like a touchdown on a rainy day

Acontece que hoje de manhã quando ouvi o novíssimo disco de James Blake, ele me pareceu o disco mais inocente possível. Criando uma atmosfera cruelzinha e se utilizando de uma eletrônica muito simples para investir em baques sentimentais estéreis. Eu quase abri o wordpress e escrevi um texto típico de um sound designer, falando mal dos discos e defendendo a capacidade criativa do britânico nos EPs (exclusivamente ligados à “cultura do som inglês”).

Aí, aconteceu o improvável. Num dia de sol, eu acabei preso no trânsito debaixo de um início de chuva. Eu não tinha o disco do iPod ainda, mas, por sorte, havia levado o laptop para a faculdade. E foi como entrar no meu próprio apartamento apertado depois de um dia exaustivo.

Estou até agora procurando alguém que me prove que não é maior disco feito pelo ser humano.