Motivo número 1: Porque os holofotes foram desligados.

Quando eu era mais novo eu me incomodava bastante com os comerciais de perfume. Até hoje é algo que nutro algum desprezo. Talvez porque o que via ali era uma petrificação de aparências. Me lembro de sentar sobre meus calcanhares a frente da televisão e encarar um universo muito perverso. Costumava sentir um alívio enorme quando a propaganda acabava.

Talvez isso explique a distância que eu sempre mantive do hip-hop que foi canonizado durante um longo período da década passada. Eu sempre fui mais do rock do que do pop. Muito porque eu sempre consegui criar simpatia pela lógica do rock. Havia muita paixão – às vezes beirando o ridículo. Nos clipes de hip-hop que assistia na MTV ou no Multishow, tudo o que eu via era o mesmo glamour petrificado dos comerciais de perfume.

Acontece que, de uns tempos para cá, o hip-hop desceu do salto e percebeu que a vida de aparências era apenas parte de uma ficção. Os holofotes haviam sido desligados, faltava abrirem as cortinas.

“All my young boys ‘round me saying, “Get money and fuck these hoes”
Where we learn these values? I do not know what to tell you
I’m just trying to find a reason not to go out every evening
I need someone that’ll help me think of someone besides myself”

(Girls love Beyonce, single novo do Drake)

Motivo número 2: Porque as cortinas caíram e não sobrou pedra sobre pedra.

Desde o boom de influência do R&B nas interpretações dos artistas de hip-hop, tornou-se impossível soar imune às próprias palavras. O que aconteceu é que a presença de um elemento mais meloso e melancólico, empurrou esses mesmos artistas a utilizarem um discurso mais direto.

Ou seja, o novo grande atrativo é de uma simplicidade enorme. Honestidade. Reconhecer que o mundo que vivem é cruel, mesquinho e vazio. É, antes de tudo, capaz de engoli-los na própria fama. O monstro tornou-se o tão amado holofote.

Agora consigo me aproximar mais dos seres humanos por trás de suas mulheres, carros e colares de ouro. E isso, no entanto, não os fez menos artistas. Pelo contrário, cada vez mais, essa lógica corrosiva faz parte do linguajar do hip-hop como recurso de estilo e desconstrução de clichês do gênero.

Os comerciais de perfume continuam sendo um pesadelo para mim. Porém, tornou-se possível encontrar algum sinal de humanidade nos grandes charts. Agora vejo homens com medos e paranoias comuns. E a coragem de dizer que os carrões e as mansões não suavizam a sensação de eterna solidão do show business.

 “I can give a fuck ’bout no hater
Long as my bitches love me
I can give a fuck ’bout no niggas
Long as these bitches love me”

(Bitches love me, Lil Wayne)