Savages_Silence yourself

A acessibilidade da internet permitiu o surgimento de uma nova geração de cinéfilos do computador. Há quem ache que isso tenha prejudicado a cinefilia, arrancando a parte apaixonada que envolve o ato de ir ao cinema e ficar em silêncio durante 2 horas. E também há alguns, como eu, que acham que isso estimulou a evolução do pensamento não só sobre cinema, mas sobre arte. Afinal, finalmente podemos assistir um filme de um diretor vietnamita que provavelmente nunca dará as caras no nosso circuito comercial.

Independente do debate e do conhecimento ter se disseminado, a ideia de quebra da experiência cinematográfica sempre fica no nosso imaginário. Estaríamos acabando com a cinefilia eliminando a necessidade da experiência? Ou estaríamos apenas tornando-a mais prática, mais dinâmica, mais alinhada ao nosso tempo?

O Savages é banda que parece querer confrontar essa ideia. Não no campo musical, mas na ideia de uma banda de rock. Nos shows que fizeram em Londres a banda pedia: por favor, não usem o Instagram, não façam videos, não tweetem. Em resumo simples e prático: assistam a porra do show. As integrantes julgam essa atitude obrigatória porque acreditam na instância do espetáculo. O álbum abre com um discurso de Noite de Estréia, filme de 1997 de John Cassevetes, que entre outros debates trata da capacidade que a realidade tem de engolir a ficção (e vice-e-versa).

Por outro lado, as quatro meninas disponibilizaram seu primeiro disco, Silence Yourself, na íntegra por streaming totalmente de graça. Sem falar, é claro, de que toda a propaganda dos seus shows foi construída e movimentada no tumblr e no twitter.  A relação do Savages com a tecnologia é semelhante a do Radiohead e a dos cinéfilos da nova geração. Admira-se a liberdade de pensamento e acervo que a rede mundial nos permite. Ainda que se idealize e se busque experimentar o espetáculo.

A banda inglesa não fez nada de exatamente novo, tanto musicalmente quanto como ato político. Mas acho que finalmente uma banda ilustrou a lógica de que precisamos voltar a pensar em formas de se experimentar música. O nosso dia-a-dia é um caos. Eu sei que ninguém mais no planeta consegue dormir 8 horas por noite. Mas, sendo arte a principal forma de escape das certezas de nossas rotinas, precisamos superar as hipocrisias do vazio. Um filtro bonito do Instagram não vai salvar sua vida.

O Savages talvez também não salve. É uma banda que chegou atrasada num período em que já ouvimos Interpol e Yeah Yeah Yeahs até ninguém mais querer saber de um disco novo deles. O que me pega toda vez que ouço o álbum é forma como Jehnny Beth vai ao vocal quase como quem lidera uma seita religiosa: “I’m cold and I’m stubbern, I’m… wide and speaking words to the blind” prega em Shut Up. Como apelo musical, a banda soa como um conjunto de demos – muito bons, diga-se de passagem – de um grupo de meninas que trocaram alguns socos com os meninos babacas do colégio e escutaram obsessivamente os discos do Joy Diviosion e da Siouxsie and the Banshees.

Elas definitivamente não se preocupam em organizar os sons que reverenciam. Enquanto o discurso é milimetricamente pensando, o som é vomitado.  A única faixa que ganha uma certa sofisticação é a belíssima Marshal Dear (com pianos e saxofones perambulando pelas sombras dos baixos), que lembra aquelas canções lentas do lado B de Closer, lindamente melancólicas. Em outra, She Will, parecem dar outra interpretação a She’s Lost Control: “She will  talk like a friend, she will kiss like a man, she will fuck other men”. É uma canção sobre a libertação do gênero e quando ela explode nos 15 segundos finais parece mais furioso do que qualquer faixa de Karen O.

Silence Yourself é uma ode ao calor dos espetáculos. Ao fervor quase imbecil que surge na gente quando estamos imersos na experiência. O que explica didaticamente porque a banda não se preocupa em polir o álbum. Independente da música, Savages quer cobrar algo de nós. Por isso o mais interessante dessa história toda vai ser quando eu vir o primeira foto de um show deles no Instagram com uma nuvem de hashtags. Alguém entendeu errado.

Disco em questão: Silence Yourself – Savages (2013)