Amor Profundo [The Deep Blue Sea], Terence Davies (2011)

“You know, it’s all beginning (it’s all beginning)
To feel like is ending (feels like it’s ending)
No loves as random
As my love
I can’t stand it”

I can’t stand it – Wilco (do álbum de 1999, Summerteeth)

Amor Profundo, adaptação da peça de Terrence Rattigan de mesmo nome, começa com um plano delicado de uma pequena estalagem num bairro simples de Londres. A câmera é conduzida cuidadosamente para que possamos ver os pequenos detalhes que compõem a construção daquele ambiente noturno. Vemos um homem jogar um cigarro no chão e, em seguida, se recolher aos seus aposentos. Também vemos um mulher colocar as garrafas vazias de leite na soleira da porta. O contra-plano diurno você já pode imaginar: o homem sai para o trabalho e a mulher coleta as garrafas agora repletas de leite.

Nos seus símbolos mais chamativos, o filme apresenta um maneirismo teatral transposto para o cinema da forma mais melodramática possível. Além do exemplo citado no parágrafo acima, ressalto ainda a forma como Davies nos encaminha às lembranças de sua personagem: da fumaça do cigarro surgem as memórias.

Parte fundamental da história dos protagonista é ilustrada por um movimento circular constante sob uma cama encharcada de azul. Uma música de tom fúnebre retorce ainda mais a qualidade nostálgica que emana dali. Mas não há enxerto qualquer de história. A câmera paira incrédula. Há um plano em que a mulher lambe o braço do amante adormecido. É tão assustador quanto bonito.

Para os propósitos do diretor, tentar achar justificativas para o amor alucinado de sua personagem é uma opção baixa. É suficiente sabermos que ela ama. Ama em azul e pronto. Não existe tristeza com fundamento; pelo contrário, o fundamento trairia suas imagens.

Rachel Weisz, em interpretação nada contida, torna-se impotente perante uma doença que amarga sua vida. Num dado momento, alguém (o seu ex-marido, mas convém chamar de alguém, um personagem tão doce que acaba atropelado pelo sentimento da protagonista) pergunta o lhe aconteceu. Ela responde: “Amor, Bill, foi isso que aconteceu”.

Passei o início do filme acreditando veemente que seu amor ou havia a deixado ou havia morrido. Ele sempre esteve ali, dizendo que a amava. E o filme nunca nos deixa duvidar disso. Nem ela duvida. Porém, amar alguém tão profundamente torna-se uma labuta. O simples fato dele esquecer seu aniversário a machuca tanto que ao enxergar os danos de um ato tão pequeno, ela decide acabar com a própria vida. O motivo não externo, vem de dentro dela. O problema é dela e de seu amor azul.

Davies usa a embriaguez apaixonada de Weisz para ressaltar o que a de mais estúpido no estado deplorável de sua personagem. Há vários planos em que a personagem encara o amante com um olhar bobo. É quase tão assustador quanto a gráfica lambida no braço. E, de algum modo, o próprio olhar apaixonado de Davies para ela, se assemelha. Ele observa aquele personagem com igual mistura de pânico e admiração.

O filme se esforça muito para dispor seus símbolos sobre as memórias e sobre o desenvolvimento gradual do drama. O que explica porque aquela cena estática e silenciosa de Weisz chorando soa tão crua. É rústica, grosseira, quase cruel. E, mais cruelmente, a câmera se retira do cômodo, como se deixasse sozinha aquela pessoa. Muito embora o personagem já estivesse sozinho desde o princípio, engolida no próprio azul.