Motorway, cinema de obstáculos

“This is the car at the edge of the road,
There’s nothing disturbed, all the windows are closed,
I guess you were right, when we talked in the heat,
There’s no room for the weak, no room for the weak”

(Day of the Lords – Joy Division)

Motorway, Cheng Pou-soi (2012)

Motorway repete planos. Melhor, repete ideia de planos. E, em hipótese alguma, nos oferece um plano resposta (um contra-plano, por se dizer). Não há muitas verdades no filme. Também não há grandes dúvidas. Em destaque, somente o carro mais forte, o melhor piloto, o homem mais distinto. Como na Inglaterra viçosa,  suja e anárquica do Joy Division, nas ruas de Motorway, não há espaço para os fracos. Os fracos ficam presos aos obstáculos, submissos a vielas e curvas.

A narrativa depende dessa afirmação, desse machismo estilístico  Quase sem querer, este se torna um filme musculoso. Um filme de ação sobre carros sendo pilotados; e às vezes, somente às vezes, sobre homens que pilotam carros. Os homens, é claro, estão dentro dos veículos, pilotando o enredo. O drama existe para servir a ação, nunca o contrário. O filme de Pou-soi é um registro de movimentos: de invenções, de imaginação, de criação de tensão.

O desenvolvimento dos personagens não é excluído, mas se torna quase totalmente refém do registro. O protagonista (um jovem que se torna policial para correr legalmente) se transforma numa máquina de ultrapassar obstáculos. É claro, o enredo trata de entregar-lhe um mestre, um alguém para almejar. E, obviamente, um vilão para vencer. Seus motivos não importam desde que o filme avance e o obstáculo seja vencido para que um novo seja colocado.

Não à toa os carros surjam como verdadeiros monstros. A imaginação de Pou-Soi os coloca para travar batalhas nas ruas, em descidas e vielas. E, para cada combate, há uma solução erguida por um movimento. O teatro do final não podia ser melhor: um desafio no escuro, com curvas apertadas e fortes impactos. O Nissan branco se torna um fantasma numa aula de tensão.

Motorway é um filme seco, tão direto e bem podado que, no fim das contas, o que mais fica na memória são os planos de pés e mãos exercendo suas funções dentro dos carros. O homem acaba como uma máquina funcional do cinema. O movimento é o fetiche único e a ação é o elemento primordial.

Amor

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 Amor [Amour], Michael Haneke (2012)

A definição do dicionário para experiência: (ação ou efeito de experimentar; conhecimento adquirido pela prática da observação ou exercício: ter experiência. Ensaios, tentativas para verificar ou demonstrar qualquer coisa: fazer uma experiência). Michael Haneke conhece esta definição. Ele sabe que o processo inteiro – do primeiro segundo de escuridão ao elevar das luzes – funciona sempre através da força motriz de um fetiche. Uma prática, um culto, uma busca por prazer.

Antes de um competente manipulador, o austríaco é um ótimo observador do caos humano (se quiser pode chamá-lo de babaca, prefiro vê-lo como um mero espectador). Seus filmes são feitos para a plateia. Ele espera muito de nós, os senhores e senhoras observando nas cadeiras, estáticos, presos durante duas horas numa sala escura e sem distrações (no melhor dos cenários, é claro).

Cada vez mais tenho certeza de que ele se interessa mais pelos efeitos das suas imagens, do que pela construção visual em si. O que justificaria um filme feio como este. Feio porque divide com os seus personagens a desconstrução da idade, os horrores da doença e a certeza da morte. Alguns podem chamar de crueza, mas se este fosse mesmo um filme natural e direto, não haveria tanta disposição para nos machucar ou impressionar, a tristeza surgiria do próprio silêncio. O filme de Haneke, por outro lado, berra.

As imagens nos transmitem certezas duras sobre a vida e a morte. São códigos de dor e cansaço que atropelam nosso fetiche pelo realismo que surge na tela. A experiência de Amor não consta na sua carga imagética, mas sim na duração da experiência externa. Não podemos deixar o cinema. No escuro, sem a ação de propaganda ou barulho, somos obrigados a testemunhar duas horas de uma marcha cruel. Dessa vez, a violência gratuita se projeta não nos personagens, mas nos senhores e senhoras sentados no escuro.

Cosmópolis

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Cosmópolis [Cosmopolis], David Cronenberg (2012)

Para Cronenberg, a ficção é o essencial. O teatro se explica na sua própria dimensão: é somente um teatro. Os personagens são marionetes e obedecem a movimentos pré-determinados. A sensação é de que, por trás das câmeras (com quase 70 anos e tendo dirigido mais de 20 filmes, em tese, o vovô David não tem mais medo de nada), está tudo sob controle.

Os filmes mais recentes (principalmente a obra-prima, “Marcas da Violência” de 2005) nos davam a entender que nosso herói – alucinado em outros tempos – havia chegado a maturidade sendo capaz de fazer filmes muito precisos. Por que então este seu “Cosmópolis” me parece tão assustadoramente descontrolado?

A chave para entender esse caos é assumir que, dentro da narrativa, o que temos é uma interpretação de extremos – exageros teatrais. A começar pelo contraste dos ambientes: um é estéril e controlado (o interior da limousine), o outro é colorido e vibrante (o mundo externo). Os encontros com os diferentes personagens revelam não apenas um universo de verborragia ininteligível (a palavra, nesse sentido, perturba a imagem), mas uma serie de encontros de diferentes níveis textuais: o sexo, a modernidade, a tensão sexual, a confusão, o medo, a perda.

O centro do caos é o personagem principal, o indivíduo que acumula a maior gama de poderes dentro do filme. A vontade individual do protagonista é, para Cronenberg, um ímpeto irresponsável, que só resulta em morte e caos. A sabedoria, nesse caso, é um terror – a mulher dele chega a comentar meio assustada: “você sabe das coisas, eu acho que é isso que você faz”. Saber, nesse caso, é possuir o próprio caos.

Dentro desso universo meramente gráfico (pouco a pouco, o protagonista vai ficando cada vez mais nu, despindo-se do seu “uniforme”) Cronenberg tenta encontrar algum sinal de humanidade. No livro adaptado, o personagem acaba nu, experimentando o mundo pela liberdade. No filme não resta dúvidas, não há resposta. “Eu pensei que você iria me salvar” diz Paul Giamatti (mais um monstro do longa) pouco antes de atirar. O tiro é o sinal de que essa salvação não existe. Isso é, dentro do teatro doentio de David Cronenberg.

Truant/Rough Sleeper

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Burial-Truant_Rough-Sleeper

O grande vazio que encontramos nas resenhas sobre os EPs recentes do Burial é causado pelo desespero de se ouvir um som nada novo, mas muito criativo. O erro está na expectativa egoísta de que o artista esteja preocupado em inovar constantemente. Não é bem o que acontece na arte de William Bevan. Ainda está aqui a batida em 2-step, os silêncios, a atmosfera chuvosa, a síncope e o vocais distorcidos. Estamos falando de marcas essencialmente parecidas com as dos álbuns – e principalmente com as de Untrue (2007), o grande marco dele.

Kindred (2012) e este novo EP exercitam a sonoridade totalmente particular do sujeito só que em narrativas extensas, com diversas pausas dramáticas, ganchos melódicos distintos e catarses sutis. O que podemos cobrar de novo neste caso específico? As novas músicas parecem querer responder essa pergunta da forma menos direta possível. Elas acessam a matriz do som do Burial, sem se preocupar em ocupar espaços ou demarcar um território. Aquilo que acontece nos 15 minutos das duas faixas é poeira jogada ao vento.

Na primeira parte de Truant vemos uma percussão elegante sendo fatiada por interrupções dramáticas (os cortantes “I feel in love with you”) e silêncios grosseiros de quase 5 segundos – a impressão que passa é de diversos falsos finais. É uma canção muito delicada até um efeito circular (que parece um diminutivo de Loner) e uma suplica distorcida tornar o ambiente inquieto e fantasmagórico. Trata-se de um trabalho monumental de progressão narrativa – de substituição e acréscimo de elementos. E acaba como se nunca tivesse começado verdadeiramente.

A outra, Rough Sleeper, é uma obra-prima. Rima direta de Kindred, a faixa responde a elementos luminosos, como se a plantar uma luz artificial numa sala vazia. O vocal (ou melhor, o elemento vocal) quase responde a uma lógica pop, mas, como em todas faixas dele, apenas existe para a engenharia toda funcionar. Conforme ela evoluí percebemos uma estratégia nada óbvia, mesmo que ela traja todas as melhores partículas do Burial. O cume é um sibilar repetitivo de sinos que desemboca num final não menos magnífico – que talvez se trate do momento mais belo que Bevan conseguiu criar em toda sua música.

A segunda faixa funciona como um resumo da arte do DJ, uma máquina que carrega o ouvinte a um ambiente estéril de madrugadas gélidas a espera que nós forneçamos a seu coração de ferro uma soma de nossas experiências, amores e vivências. O Burial se tornou uma banda tão indefinida quanto nossa percepção dos diversos sons que permeiam o mundo – o que explica porque tudo sempre parece novo e tão imenso. Fica cada vez mais complicado dialogar objetivamente com o que se ouve nos EPs do misterioso inglês.

Top 10 – As Melhores Faixas de 2012

Sem muita frescura, a vontade é apenas de ilustrar as 10 melhores faixas dentro das suas idiossincrasias e particulares. Os dez ápices do ano:

01. Half Gate – Grizzly Bear

Em Half Gate há espaço para amor (o alento da voz solitária e bela de Ed Droste) e raiva (o combate emocional que brota da suplica de Daniel Rossen). Só não há espaço para incertezas – como havia nos momentos misteriosos de Veckatimest e Yellow House. Aqui a dúvida é apenas uma arma de impacto; de desamparo. Num universo comum, a calmaria viria depois da tempestade. Para os ursos a percepção do tédio, da presença da inércia é que os leva ao turbilhão emotivo: “quiet pictures drawn each day before it ends, to remind me once again why I’m even here” suspira Droste antes do ataque de Rossen. E daí para frente, somente nuvens negras numa singular canção de extremos. (Ouça)

02. Kindred – Burial

Kindred é uma música sobre um olhar. Sobre um sujeito que é capaz de retorcer uma canção que não é sua e extrair dela frases que sustentam uma atmosfera inconstante. Mas, depois de mergulhar completamente no precipício do Burial (e dialogar com uma faixa em constante movimento), porque me impressiono com os momentos que a coisa simplesmente para? Nada de argumentos técnicos (comuns quando se fala em eletrônica), no caso, chega a ser estúpido falar de técnica quando um sujeito encontra caminhos tão simples para uma música tão gigante. (Ouça)

03. me Yesterday//Corded – Flying Lotus

As melhores canções do Flying Lotus namoram com o silêncio e com a forma como os elementos vão dando espaço um para o outro. A penúltima faixa do disco recente é um pouco diferente: se ajustando entre o espacial e o minimalista, me Yesterday//Corded leva toda a segurança milimétrica para uma zona de desequilíbrio; de contraste e delicadeza. É como se ele tivesse tentando cruzar Star Wars com Café Lumière. Deve ter nascido de experiência cientifica, mas soa como se tivesse surgido de um espasmo do universo. (Ouça)

04. Pyramids – Frank Ocean

Pyramids é uma extensão de The Morning. Ocean, no entanto, é menos conciso. A sua jornada da noite nos oferece três longas narrativas. Cada uma com suas particularidades líricas, mas todas dividindo uma mesma placa neon: sexo como fonte de distância. Com sintetizadores cafonas, o narrador põe os dois pés do R&B no selvagem reino do mainstream. O seu personagem, por outro lado, continua imóvel, preso num pornô chique com jacuzzis, champanhe e rubis. A poesia pode parecer clara, mas conforme você se aproxima, Pyramids se revela um interminável e assustador enigma: afinal, quem é o ladrão que sequestrou a rainha Cleópatra? (Ouça)

05. Sing About Me – Kendrick Lamar

Soa quase cansativa a forma como Lamar coloca todos os seus medos, seus fantasmas e suas expectativas numa única música. Porém, diferente da ambição do restante do disco, esta é uma faixa muito simples (uma percussão crua e um beat reflexivo). É como se Kendrick quisesse dar espaço para toda a riqueza da história. A chance de erro era enorme, mas acima de toda a produção, o homem (o rapper) soa como o interprete da década: machucado, mas forte; realista, mas sonhador. O disco é repleto de vontades chulas e expectativas infantis que só poderiam sair da cabeça de um menino dos ghettos. Sing About Me, no entanto, se volta ao que o personagem de Kendrick julga importante: “am I worth it? did I put enough work into it?”. Em 2012 nenhum sentimento foi mais intenso. (Ouça)

06. Give out – Sharon Van Etten

A julgar pelo movimento magnético de atração e repulsão retratado por Sharon, não é de se questionar porque esta música pareça ser tão estática. Seu corpo se move (“You are the reason why I’ll move to the city or why I’ll need to leave”), mas há uma inércia emocional que os arranjos e a melodia insistem em iluminar. Para completar a ficha técnica: Give Out é filmado com luzes frias dentro de um apartamento pequeno no centro de Nova York. (Ouça)

07. Avalanche – Just Friends

Nicolas Jaar convida Sasha Spielberg (filha do diretor Steven Spielberg) para regravar uma canção de Leonard Cohen. Se toda faixa do velhinho possuí um apelo religioso, Jaar trata de ressaltar esse particularidade. O tempo congela para a voz mórbida de Sasha ir até uma dos frases mais gélidas da história da música: “You who wish to conquer pain you must learn to serve me well”. Nicolas, aqui, só funciona como um imediato tão petrificado pela voz da moça quanto nós. Ele cria uma atmosfera assustadora (salpicando suspiros por toda parte) e pesada que se comunica perfeitamente com a faixa, mas o capitão a todo momento é a voz de Sasha. A pergunta que fica na cabeça depois de várias audições: com quantos silêncios se faz uma obra-prima? (Ouça) 

08. Nova – Burial & Four Tet

A batida 2-step do Burial funciona como o falso chão e o beat circular do Four Tet como uma porta para outra dimensão. Nova é uma canção-convite. Um mergulho de seis minutos numa sopa sensorial de mistério e precisão; surpresa e técnica. É exatamente como esperávamos de uma canção da parceira, mas, como as músicas de ambos, soa como nenhuma outra faixa já gravada. (Ouça)

09. 110% – Jessie Ware

A moça gravou algumas músicas tão boas quanto essa, mas nenhuma ri tão descaradamente das certezas dos charts que deram tanto crédito a artistas estéreis como Adele. O disco inteiro vive de um atmosfera escorregadia – uma espécie de névoa – que a produção joga sobre as pauladas pop de Ware. Porém, nenhuma se utiliza da voz da inglesa com tanta malemolência. Jessie canta correndo, seguindo um ritmo, um compasso. E na hora de despejar emoção, ela para, respira, e segue a correria. O pop e seus mistérios. (Ouça)

10. Sever – iamamiwhoami

As melhores faixas do Clams Casino parecem se desconstruir na nossa frente como se fossem tirando peças de roupa. Nesse sentido, fico com a impressão de que as melhores faixas dessas nova onda de eletrônica explodem quando estamos no limite da ansiedade, prontos para ver um corpo nu. Sever faz isso em dois momentos. O primeiro um falso êxtase, um anti-clímax. E depois um salto furioso. Atmosferas claustrofóbicas e quase eróticas, isso até o momento em que, como nunca grande faixa de hip-hop, a coisa deixa de soar a sexy e passa ser pura melancolia noturna. (Ouça)

Top 10 – Os Melhores Discos de 2012

Dessa vez, resolvi não apelar tanto para as  minhas opiniões formadas sobre tudo e acabei selecionado os quinze discos que melhor se comunicaram comigo. Digo isso para não deixar mostrar que essa talvez seja a lista mais pessoal que eu fiz. Esquivar-se dessa fato, da pessoalidade disso aqui, é sem dúvida driblar o leitor. No fim das contas, é tudo muito particular.

10. Total LossHow to Dress Well

Num dos momentos mais frágeis do ano, Tom Krell submerso num nevoeiro de gelo seco revela que sente saudade de todos: dos amigos, da mãe, do pai (até da avó). Pode parecer apenas um retrato de uma artista caquético, mas não é só isso. É a tentativa de mostrar o universo de um artista entregue ao furacão da perda. É a interpretação de um universo. Nesse sentido, Total Loss é a grande apoteose do teatro de Krell: um mundo de noites frias, R&B, afetações ensaiadas e arranjos que miram o sublime. Sem as gracinhas do lo-fi, o How to Dress Well soa verdadeiramente destruído.

09. Shields – Grizzly Bear

Em Shields recebemos o resultado da compreensão de um meio-ambiente. A exemplo de um filme como O Ano Passado em Marienbad, a narrativa e o clímax são jogados para escanteio, as imagens nos fornecem o suficiente para permaneçamos em suas salas (melodias) e quartos (arranjos), observando, sem pressa alguma, suas portas e janelas (seus versos). O essencial é ver os ursos desafiando a própria métrica. Talvez nós quiséssemos um disco tão fantasmagórico quanto Yellow House, ou tão desajustado como Veckatimest, no entanto, o que eles nos oferecem é uma nova estrada, com maior apelo pop, mas com a mesma capacidade de nos lançar ao estranho, ao pitoresco; a bela e a fera.

08. Cancer 4 Cure – El-P

Ouvir Cancer 4 Cure passa sensação de acompanhar um workaholic no meio de uma semana entupida de reuniões e apresentações – e a essa altura o cara já tem mais cafeína correndo no sangue do que hemoglobina. É por isso que a coisa toda acaba soando quase séria – as faixas são sempre agressivas -, mesmo quando ele insiste que devemos “bombear essa merda como eles fazem no futuro“. A piada está incluída. Para El-P, não devemos levar os dogmas abusivos e politicamente corretos do século XXI muito a sério: é preciso rir para não se deixar engolir pela coisa toda

07. Allelujah! Don’t Bend! Ascend! – Godspeed You! Black Emperor

Entre nós desde os anos 90, impossível não olhar um disco novo (depois de um hiatus de 10 anos) do Godspeed com alguma desconfiança; o que mais um dos pioneiros do pós-rock pode nos oferecer? Sob muitas camadas de drones e ruídos, encontramos um banda ainda em estado embrionário, com ideias salpicando a todo instante. O foco, nesse caso, não é nem em trazer para as composições da banda novas influências, mas sim encontrar novas maneiras de caminhar dentro de longas canções: seja na repetição de uma distorção, seja no rastejar de um riff de guitarra ou na explosão de tensão do clímax. O que mais me impressiona é como, diferente do passado, a tentativa do novo disco é de nos manter sempre dentro do furacão. A neutralidade dos momentos iniciais poder ser lida como uma prece de despedida: boa sorte, viajantes. E de novo somos violentados por longos minutos.

06. The Seer – Swans

Conforme a narrativa avança percebo o estado da música do Swans. A banda conseguiu dar unidade a um som que nunca se multiplica ou se torna mais ágil (como numa canção tradicional de pós-rock), mas segue em frente sempre nos oferecendo um novo obstáculo – não no sentido de abrasividade, mas de densidade, de impacto. Gira nos tem na palma da mão o tempo todo. É como um filme de terror em que o diretor nos faz esperar por um susto que nunca acontece. Dentro da visão de Gira, destruir tudo é a melhor forma de começar de novo, não há espaço para correções ou evolução, principalmente quando o fim dá espaço para tanta criação.

05. Luxury Problems – Andy Stott

“Luxury Problems é um disco tão intenso que a força particular de cada canção parece sufocar a seguinte. Trata-se do resultado de estudo e compreensão. Cada som parece ter nascido de uma experiência única. Num contexto geral, o que acabamos recebendo é um som muito pesado (contundente mesmo) sendo misturado a outros pequenos detalhes sonoros numa simulação de repulsão e atração. Os diversos barulhos emergem, contaminam a música e desaparecem como se fossem derrotados por uma tempestade mais poderosa. Impressionante, no fim das contas, é como tudo parece extremamente orgânico. Como se esse poderio todo só pudesse ter sido criado por uma multidão ensandecida batendo compulsivamente em instrumentos rústicos.

04. Swing Lo Magellan – Dirty Projectors

O melhor seria chamar Swing Lo Magellan de partes de um núcleo maior: os membros de Dave Longstreth. As canções remetem à um roteiro de um passado distante (o folk, o chamber pop, o R&B), mas dirigidas por um sujeito que encontra nuances  particulares em lugares comuns. É um disco que celebra a força da melodia e que expõe as principais características de uma banda – os riffs cristalinos, as harmonias vocais das três meninas, as metáforas sobre a própria arte de se fazer música – sem necessariamente apelar para sentimentalismo. O romantismo que emana da maioria das faixas é, como a maioria dos elementos, apenas outra expressão da visão que o Dirty Projectors tem de música pop.

03. channel ORANGE – Frank Ocean

Ocean teve tempo suficiente para criar um álbum que funciona como um fim de semana na cabeça de garoto atormentado por um desejo de ser algo mais do que si mesmo. Frank vende seu peixe porque não tem medo do ridículo. A empreitada de channel ORANGE é camuflar em histórias fictícias todos as lembranças e traumas adolescentes de Ocean. Do primeiro amor à aversão aos vizinhos mais afortunados. Das partidas de vídeo-game aos intermináveis passeios pela madrugada depois de “pegar emprestado” o carro do pai. A saudade aqui não surge das referências à soul-music (e ao mainstream também, é verdade), mas da própria consciência do álbum. O resultado é um grande antídoto contra todo o verniz moderninho e auto-irônico que hoje domina o indie rock.

02. The Idler Wheel – Fiona Apple

Há muitas mulheres em Fiona Apple, talvez todas elas – o que explica porque ela é uma artista tão abraçada pelo público feminino. A moça é um portfólio do gênero. Conhece todos os dramas, sabe de todas as tristezas. Senta no pedestal porque aprendeu de tudo um pouco. E aí o porquê de sua interpretação sempre parecer acima de qualquer nota de piano. No fim das contas, o que temos é Fiona Apple limpa, seca, direta, quase escarrada. Tão desnuda que, confesso, depois de mais trinta audições sinto vergonha da intimidade que criei com o disco. É como se eu soubesse demais sobre ela.

01. good kid M.A.A.D. City – Kendrick Lamar

Section. 80 revelou o rapper criativo, buscando um som instável, meio vil, meio sexual (entre a tradição e o novo). O novo disco revela a alma literária de Kendrick Lamar. Enquanto ele passeia equilibrando-se delicadamente entre o mainstream e a âncora noventista, Kendrick encontra o som ideal para uma narrativa de ascensão e queda, de glória e decadência. Um longo livro sobre um menino de sonhos chulos (sexo, fama, dinheiro e poder) que se tornou um ás do showbusiness. Batalha, conquista, trabalho pesado; esses são os letreiros que mais chamam atenção depois da viagem percorrida por Kendrick (a música mais bonita do ano, aliás, está aqui). Tudo em good kid M.A.A.D. City se volta às concessões poéticas que a história cobra. Acima disso, o que ouço são canções de paixão e ambição, que demonstram a fúria de um rapper que jamais se esquiva.

Souvlaki – Slowdive

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Discutíamos esses dias, entre amigos num grupo do Facebook, a respeito de gêneros bastante específicos como o dream pop/shoegaze do final dos anos 80 e início dos 90. A conversa começou quando perguntei qual era o disco favorito de cada um tirando o exemplo óbvio de Loveless (1991) e Isn’t Anything?/You Made Me Realise (1988) do My Bloody Valentine.

Antes de responderem eu já tinha ideia dos discos que surgiriam: Souvlaki (1994) do Slowdive, Nowhere (1990) do Ride, On Fire (1989) do Galaxie 500 e etc.

Todas esses discos possuem características comuns – além de um embrião melódico muito semelhante. No entanto, quanto mais ouço esses medalhões, mais percebo que a definição que damos ao gênero possui mais utilidade quando pensamos na época que foram lançados. No fim das contas, considerá-las um pacote só é deixar de perceber os nuances de cada um.

Esse texto é uma tentativa de explicar o meu favorito entre esses álbuns sem cair em um discurso técnico e preso às estéticas do gênero.

Dito isso, conto a história. O trabalho do Slowdive é o principal pilar do meu iPod nos últimos dias. Eu descobri o disco procurando álbuns que soassem com um das minhas faixas favoritas do My Bloody Valentine (Sometimes). Quebrei a cara porque não consegui encontrar a sonoridade simultaneamente corrosiva e romântica daquela música, mas acabei encontrando um disco que se comunica quase inteiramente com a imagem que ela me passa.

Souvlaki é uma massa cinza, uma janela manchada de gotas de chuva. Um álbum de quem ainda idealiza amor e se sente atordoado num mundo muito agitado e confuso. A sonoridade funciona como uma cicatriz na pele. Ela dói e perturba os narradores das histórias – estes, tipos melancólicos, que em quase todo o álbum parecem sussurrar do meio de uma nuvem de fumaça.

Mesmo quando o manto melódico é coberto por uma camada de ruídos, a ditadura estética da banda é a da tristeza. A sensação é a de assistir um grupo de amigos tocando todos cabisbaixos: “Está tudo, estamos todos juntos” se consolam em Altogether.

No primeiro disco, o também ótimo Just for a Day (1991), os sintetizadores também ressoavam a desistência existencial deles, mas a força da percussão tornava a coisa mais agressiva – como quem acorda de um sonho perfeito e se encontra novamente com a realidade.  Aqui o contraste entre a distorção dos sintetizadores e a guitarra morosa é a linha de pensamento do Slowdive. É essa soma que nutre o som e o faz ficar suspenso no ar, frágil, mas intenso.

Nas melhores faixas vamos direto ao coração da floresta escura. Em Sing, Rachel Goswell canta docemente apática sobre um painel de efeitos eletrônicos (contribuição de Brian Eno, um dos produtores do disco, e co-autor da canção), a sensação é de ouvir uma mulher sendo puxada vagarosamente buraco abaixo. Dagger, ao contrário, não engole os vocais, mas permite a Neil Hastead o prazer de cantar livre sobre uma melodia de violão. É o momento mais delicado do disco: “você sabe que eu sou o seu punhal, você sabe que eu sou a sua ferida” revela, fragilizado.

Nas lovesongs de Souvlaki, ser o ferimento, é estar para sempre presente junto à pessoa amada. Não é questão de perversidade. Aqui, ama-se demais. É um universo de inversos, de vontade maiores do que a força moral pode segurar: “seu mundo descontrolado me empolga, Alison eu estou perdido” confessa o personagem da abertura, nos impulsionando a um mergulho definitivo num mundinho pálido, totalmente particular.

SOUVLAKI – Slowdive
(Creation, 1993)
Inglaterra

Luxury Problems – Andy Stott

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Quando penso sobre o que dizer sobre um disco que estou escutando repetidamente, a minha primeira alternativa é imaginar uma espécie de narrativa interna que os discos possuiriam. Eu tento tratar toda obra como uma espécie de história contada por seus autores.

Gosto de pensar nos discos como contos de uma obra maior. A cada novo conto, o escritor adiciona algum elemento que nos coloca cada vez mais próximos do clímax.  Os meus discos favoritos – dentro dessas histórias particulares – são aqueles em que o artista fica enfim o mais próximo da própria criação.

“Mas próximo em que sentido?” é a pergunta que eu acabo sempre fazendo. Aí é que está a parte bacana. Se fosse uma matemática precisa, rapidamente julgaríamos discos, filmes, livros e etc. Acontece que para cada espetáculo há uma forma de compreensão.

No caso desse Luxury Problems essa proximidade de Andy Stott vem da forma como ele consegue ditar as regras da sua eletrônica. É como se cada som que surgisse tivesse sido mil vezes testado como num processo cansativo e perfeccionista. O disco ressoa essa afirmação de poder, esse estigma de violência sincopada que o som de Stott já possuía em outros momentos. Mas vai além, encontra nessas marcas um som resplandecente, vivo, sem contaminações de gênero.

Este é um disco tão intenso que a força particular de cada canção parece sufocar a seguinte – ouvi-o várias vezes com fones diferentes e, independente de como ouço, sempre existe algum som capaz de perfurar os desenhos das canções. Trata-se do resultado de estudo e compreensão. Cada som parece ter nascido de uma experiência única.

Num contexto geral, o que acabamos recebendo é um som muito pesado (contundente mesmo) sendo misturado a outros pequenos detalhes sonoros numa simulação de repulsão e atração. Os diversos barulhos emergem, contaminam a música e desaparecem como se fossem derrotados por uma tempestade mais poderosa. As faixas se contem a todo instante como se esperassem ansiosamente a chegada de uma nova percussão ou de um baixo mais elástico.

Impressionante, no fim das contas, é como tudo parece extremamente orgânico. Como se esse poderio todo só pudesse ter sido criado por uma multidão ensandecida batendo compulsivamente em instrumentos rústicos. Sabiamente (como o Burial), Andy só usa os hooks vocais como adereços sibilantes. Não existe participação catártica neles. Em Hatch the Plan, um dos momentos mais fortes do álbum, a repetição de “dance for me” se torna um manto.

Há tanta coisa acontecendo, mas é notável como nunca nos sentimos jogados num mar de cacofonia, mas num oceano de possibilidades. Mesmo sem forma aparente, as canções se instalam e permanecessem num timing ideal. A exatidão de suas durações só ressalta a capacidade compreensão de Andy Stott.

Em cada faixa se encontra algum detalhe a se admirar com mais cuidado. Seja a linha de baixo que caminha sorrateiramente pela faixa-título, ou o drum ‘n’ bass de Up the Box e os vocais esfumaçados que funcionam como paredes sonoras de Leaving. Este é um disco duradouro, o conto na história de Andy Stott em que o artista coloca tudo que sabe em prática. Daí o porque de parecer que foi feito com muito sangue e suor.

LUXURY PROBLEMS – Andy Stott
(Modern Love, 2012)
Inglaterra

2 – Mac Demarco

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Mac Demarco grava discos muito simples. Ou melhor dizendo, ele grava discos que querem parecer simples. Quase tudo que acontece “2” sugere uma compreensão muito banal de rock. Afinal, a vida que Mac retrata aqui é nada mais do que banal. “A vida se move devagar” comenta nosso herói suburbano. Na levada preguiçosa dos personagens da vizinhança de Mac, enxergo um disco que se move de forma muito parecida: um doce e vagaroso desembrulhar de riffs de jangle pop.

Como um menino banal de uma cidadezinha banal, ele não se preocupa com o externo, com grandes viagens. Tudo o que Mac entende por pop deve ter sido embalado por programas de rádio e comerciais de televisão. Isso não é motivo para que “2” soe gratuito – este não é um álbum que qualquer um faria apenas se lançando a uma referência.

Demarco consegue músicas que soam como uma manhã preguiçosa. Um vilão e uma varanda sendo invadida pelos ainda tímidos raios de sol. Na verdade, o que temos é um ligação muito direta entre o pré-rock dos anos 50 e o jangle pop. Uma combinação que, em momentos mais inspirado como “Ode to Viceroy”, acabam soando como baladas psicodélicas perdidas no tempo – algumas se assemelham muito ao rock zumbi de Ariel Pink.

A estréia de Demarco é um recital de talentos de uma pequena cidade. Um disco que encontra suas particularidades no comum. É conjunto de canções muito semelhantes entre si, mas que nos seus pequenos detalhes nos mostram um compositor de pequenas surpresas. “Orgulho da vizinhança” ele aplaude na abertura. E parece o suficiente.

O Espírito da Colmeia – Victor Erice

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O clássico de Victor Erice é um filme sobre a contemplação do imaterial (da morte e da ficção). Mas é também uma fábula macabra das descobertas da infância. O ritmo lento e os planos longos nos sentenciam a experimentar os mesmos medos das personagens – seja ele físico (no caso do susto que a irmã mais velha dá em sua irmã menor), seja ele extracampo (o primeiro contato com a ideia de futura inexistência).

O “Espírito da Colmeia” é, na verdade, um pequeno filme de horror (em uma das cenas, a irmã mais velha descobre a vaidade usando o próprio sangue como batom). O início ostenta o letreiro “era uma vez”, mas a história é um falso conto de fadas. Há ternura (no rosto da pequena Ana Torrent, sempre um alento), mas ela é fugaz dentro de um longa com planos tão duros, quase imóveis.

O tom efêmero ressalta a forma furiosa como o deixar de existir atinge com potência uma existência ainda tão inocente e ausente de qualquer noção de responsabilidade ou legado. O filme leva a pequena Ana para o seu universo de símbolos – o cogumelo, o monstro – e a carrega para sua percepção final: a morte é muito mais do que uma simples saída da frente das câmeras.

O ESPÍRITO DA COLMEIA (El Espíritu De La Colmena, 1973)
Dirigido por Victor Erice
Espanha
Cotação: 96