O homem nos robôs do Daft Punk

“It’s very strange how electronic music firmatted itself and forgot that its roots are about the  surprise, freedom, and the acceptance of every race, gender, and style of music into this big party.”

O que explica porque eu sempre os vi como uma banda de bandeiras e não de temas. E a frase não deixa de ser uma patada numa parte da eletrônica que parece isolar os sons ditos puros e complexos. Não há preciosismo que se sustente numa canção do Daft Punk. Para eles a emoção é suficiente. Daí porque daquele monólogo do Giovanni Giorgio no começo do disco novo parecer tão poderoso. “Tudo o que eu queria fazer é música” ele diz.

Giorgio e o Daft Punk querem nos dizer simplesmente: ouçam nossa música, ela foi feita por quem também é apaixonado por isso.  Sem entrar nos méritos críticos e sem tentar concluir se Randon Access Memories é ou não um grande disco, tudo o que o Daft Punk me passa é sentimento de liberdade que eu sentia quando ouvia One More Time lá em 2001. Celebrar os bons tempos, apenas esta noite.

Frangalhos em azul

Amor Profundo [The Deep Blue Sea], Terence Davies (2011)

“You know, it’s all beginning (it’s all beginning)
To feel like is ending (feels like it’s ending)
No loves as random
As my love
I can’t stand it”

I can’t stand it - Wilco (do álbum de 1999, Summerteeth)

Amor Profundo, adaptação da peça de Terrence Rattigan de mesmo nome, começa com um plano delicado de uma pequena estalagem num bairro simples de Londres. A câmera é conduzida cuidadosamente para que possamos ver os pequenos detalhes que compõem a construção daquele ambiente noturno. Vemos um homem jogar um cigarro no chão e, em seguida, se recolher aos seus aposentos. Também vemos um mulher colocar as garrafas vazias de leite na soleira da porta. O contra-plano diurno você já pode imaginar: o homem sai para o trabalho e a mulher coleta as garrafas agora repletas de leite.

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Façam silêncio…

Savages_Silence yourself

A acessibilidade da internet permitiu o surgimento de uma nova geração de cinéfilos do computador. Há quem ache que isso tenha prejudicado a cinefilia, arrancando a parte apaixonada que envolve o ato de ir ao cinema e ficar em silêncio durante 2 horas. E também há alguns, como eu, que acham que isso estimulou a evolução do pensamento não só sobre cinema, mas sobre arte. Afinal, finalmente podemos assistir um filme de um diretor vietnamita que provavelmente nunca dará as caras no nosso circuito comercial.

Independente do debate e do conhecimento ter se disseminado, a ideia de quebra da experiência cinematográfica sempre fica no nosso imaginário. Estaríamos acabando com a cinefilia eliminando a necessidade da experiência? Ou estaríamos apenas tornando-a mais prática, mais dinâmica, mais alinhada ao nosso tempo?

O Savages é banda que parece querer confrontar essa ideia. Não no campo musical, mas na ideia de uma banda de rock. Nos shows que fizeram em Londres a banda pedia: por favor, não usem o Instagram, não façam videos, não tweetem. Em resumo simples e prático: assistam a porra do show. As integrantes julgam essa atitude obrigatória porque acreditam na instância do espetáculo. O álbum abre com um discurso de Noite de Estréia, filme de 1997 de John Cassevetes, que entre outros debates trata da capacidade que a realidade tem de engolir a ficção (e vice-e-versa).

Por outro lado, as quatro meninas disponibilizaram seu primeiro disco, Silence Yourself, na íntegra por streaming totalmente de graça. Sem falar, é claro, de que toda a propaganda dos seus shows foi construída e movimentada no tumblr e no twitter.  A relação do Savages com a tecnologia é semelhante a do Radiohead e a dos cinéfilos da nova geração. Admira-se a liberdade de pensamento e acervo que a rede mundial nos permite. Ainda que se idealize e se busque experimentar o espetáculo.

A banda inglesa não fez nada de exatamente novo, tanto musicalmente quanto como ato político. Mas acho que finalmente uma banda ilustrou a lógica de que precisamos voltar a pensar em formas de se experimentar música. O nosso dia-a-dia é um caos. Eu sei que ninguém mais no planeta consegue dormir 8 horas por noite. Mas, sendo arte a principal forma de escape das certezas de nossas rotinas, precisamos superar as hipocrisias do vazio. Um filtro bonito do Instagram não vai salvar sua vida.

O Savages talvez também não salve. É uma banda que chegou atrasada num período em que já ouvimos Interpol e Yeah Yeah Yeahs até ninguém mais querer saber de um disco novo deles. O que me pega toda vez que ouço o álbum é forma como Jehnny Beth vai ao vocal quase como quem lidera uma seita religiosa: “I’m cold and I’m stubbern, I’m… wide and speaking words to the blind” prega em Shut Up. Como apelo musical, a banda soa como um conjunto de demos – muito bons, diga-se de passagem – de um grupo de meninas que trocaram alguns socos com os meninos babacas do colégio e escutaram obsessivamente os discos do Joy Diviosion e da Siouxsie and the Banshees.

Elas definitivamente não se preocupam em organizar os sons que reverenciam. Enquanto o discurso é milimetricamente pensando, o som é vomitado.  A única faixa que ganha uma certa sofisticação é a belíssima Marshal Dear (com pianos e saxofones perambulando pelas sombras dos baixos), que lembra aquelas canções lentas do lado B de Closer, lindamente melancólicas. Em outra, She Will, parecem dar outra interpretação a She’s Lost Control: “She will  talk like a friend, she will kiss like a man, she will fuck other men”. É uma canção sobre a libertação do gênero e quando ela explode nos 15 segundos finais parece mais furioso do que qualquer faixa de Karen O.

Silence Yourself é uma ode ao calor dos espetáculos. Ao fervor quase imbecil que surge na gente quando estamos imersos na experiência. O que explica didaticamente porque a banda não se preocupa em polir o álbum. Independente da música, Savages quer cobrar algo de nós. Por isso o mais interessante dessa história toda vai ser quando eu vir o primeira foto de um show deles no Instagram com uma nuvem de hashtags. Alguém entendeu errado.

Disco em questão: Silence Yourself – Savages (2013)

A importância do tempo

Modern Vampires of the City

“Though we live on the US, darling. You and me got our own sense of time” canta Ezra Koenig em Hannah hunt. A frase atrai toda nossa atenção à posição do eu-lírico em relação ao mundo. É uma frase que diz muito sobre o Vampire Weekend como banda e como fãs de rock, de pop, de música africana e o que mais for. O refrão continua: “If I can’t trust you damn it, Hannah! There is no future, there is no answer”. A frase é dita com tamanha frustração que é impossível não se emocionar.

A música é uma das várias desse disco que retratam o que há de mais fundamental na banda: a capacidade de dialogar com culturas diferentes, extraindo o que lhes é particular. Há sempre um sorriso no rosto, uma brincadeira que os faz muito mais interessantes que todo o restante do indie rock (um cenário que fica cada vez mais preocupado com a sua imagem). “And the punks who would laugh when they saw us together, well they didn’t know how to dress for the weather” dizem em Step. A ironia existe, mas a frase é dita com a mesma pureza de uma criança que acha curioso o rapaz de moicano e jeans rasgados em pleno inverno.

O “Modern” do título não deixa mentir, este é um disco jovem. A idade é um tema caro ao Vampire Weekend. Talvez porque a banda acredite demais na energia que emana da maioria das suas faixas. Isso reflete tanto nos temas das letras, quanto na construção das faixas. Há memória emocional suficiente (e latente) para Koenig escrever suas letras. E há ambição suficiente para Rostam Batmanglij explorar do surf-rock ao hip-hop. Se por um lado o letrista fica cada vez mais maduro, Rostam está cada vez mais crianção. Veja como os gritinhos cheios de auto-tune em Ya Hey decoram a letra feroz da música. Com a sintonia dos dois, a banda só sai ganhando.

No final, o que parece ser importante para os vampiros é ter tempo. “You take your time, young lion” comunicam na última faixa. “Everyone is dying, but girl you’re not old yet” canta Erza Koenig em outra. Há tempo, ainda existe a chance de viver, de entender o que se passa no Irã ou o que se passa no jardim do vizinho. O Vampire Weekend é o tipo de banda que se interessa por essas particularidades. Isto é, se Hannah confiar neles. Do contrário, what’s the point?

Disco em debate: Modern Vampires of the City – Vampire Weekend (2013)

Os 20 melhores filmes dos anos 2000

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Amantes, James Gray (2008)

Gray ficou conhecido por seus filmes policiais, mas em é Amantes que sua perseguição pela noite se concretiza como um cinema de disparos. E não sobra pedra sobre pedra. Joaquin Phoenix um monstro.

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Amantes constantes, Philippe Garrel (2005)

Vi o filmes algumas vezes e ainda não se mais me impressiona o sonho ou o impacto do real. Acho que no final o que fica é aquela imagem de desolação, de jovens que vão às ruas fazer história antes mesmo de aprender a amar.

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Amor à flor da pele, Wong Kar-Wai (2000)

Um filme sobre cores e dores. Vi várias vezes e ainda não sei até onde a ficção serve à vontade dos protagonistas. Independente das brincadeiras visuais e de enredo, ainda me emociona o que filme tem de mais direto: a paixão de duas pessoas.

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Café Lumière, Hou Hsiau-Hsien (2003)

Um blog preguiçoso me avisava: não acontece nada nesse filme. Realmente, nada acontece aqui. Talvez porque este não seja um filme sobre ação, mas sobre a sua ausência. Café Lumière é um filme de espaços e ambientes. E, claro, sobre o efeito fantasmagórico que nasce do cotidiano.

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Cidade dos sonhos, David Lynch (2001)

Lynch desmonta o cinema para mistificá-lo. Aí fica claro que se trata de um sátira e uma declaração de amor à imersão (por isso há romance, terror, mistério, comédia). E depois de tudo isso ainda sobra uma história de amor das mais doloridas que eu conheço.

clean

Clean, Olivier Assayas (2005)

Assayas menos interessado nas barreiras da língua e da maturidade, e mais interessado no que é essa força que nos distância uns dos outros.

demonlover

demonlover, Olivier Assayas (2002)

De novo Assayas, agora atravessando barreiras para nos colocar no centro do caos. O início do século com todas as suas bizarrices, reviravoltas de roteiro, sangue, internet, sexo. Sem julgamento, apenas um olhar curioso pela porta entreaberta.

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Elefante, Gus Van Sant (2003)

Já vi Elefante tantas vezes e já escrevi tantas vezes sobre ele, que a essa altura já nem consigo mais dizer o que mais gosto nele. Acredito que seja a vontade de se aproximar de uma passagem da vida como um fenômeno inexplicável. O massacre de Colombine sem análises, apenas cru e imensamente assustador.

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Embriagado de amor, Paul Thomas Anderson (2002)

O filme mais imbecil de PTA, por isso o melhor dele. Um longa de muitas cores, sons e coisas se quebrando – e ainda assim não é mais histérico do que Magnólia. E bem que o Adam Sandler podia sempre atuar assim.

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Encontros e desencontros, Sofia Coppola (2003)

Um das minhas portas de entrada no cinema. Coppola brincando com o conceito de belo e feio, de velho e novo, de início e fim. Mas é um filme sobre Bill Murray e Scarlett Johansson. E os dois parecem realmente perdidos.

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A Espiã, Paul Verhoeven (2008)

Acho Verhoeven um chatão, mas aqui ele ultrapassou todos os maneirismo que me incomodavam nos outros dele. É um filme espetáculo, feito para um público que não espera nada mais do que isso. Acho que foi o Tiago (Superoito) que comentou isso: se estivesse vivo, Hitchcock teria inveja da cena de fuga com o chocolate.

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Kill Bill Vol.1, Quentin Tarantino (2003)

É o filme maldito do Tarantino. Onde alguns veem um remendo de outros filmes, eu enxergo a ambição de dialogar com uma cultura, com uma forma diferente de contar a mesma história. E impressionante a preocupação dele com detalhes. A cena final reconstrói uma batalha contra o “principal vilão” só nos focos das mãos, expressões e posições de corpos.

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Marcas da violência, David Cronenberg (2005)

Provavelmente as imagens mais dedicadas e precisas de David Cronenberg. Um filme sobre passado e projeção. O plano final está entre os mais bonitos do cinema.

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Não estou lá, Todd Haynes (2007)

Menos a homenagem emocional ao homem Bob, e mais a ambição de construir o mito Dylan. Enquanto outros buscaram a verdade, Haynes tentou fortalecer o enigma.

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Onde os fracos não tem vez, Joel e Ethan Coen (2007)

Filme de terror. Ou filme sobre a tensão. O faroeste moderno dos irmãos Coen projeta algumas das imagens mais perturbadoras da década. De quebra encontraram em Javier Bardem o vilão mais assustador e imprevisível possível.

paprika

Paprika, Satoshi Kon (2006)

Videoclipe desgovernado sobre o que Kon considera o maior patrimônio de um homem: seus sonhos. No caminho: um ótimo filme de ação e uma bela história de amor.

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Sobre meninos e lobos, Clint Eastwood (2003)

As ruas e a necessidade de governá-las. Um filme sobre sombras.

tokyo

Tokyo Sonata, Kiyoshi Kurosawa (2008)

A epopeia do homem moderno. Ok, algo muito melhor do que essa frase simplista que eu escolhi. Na cena final dá pra fechar os olhos e ainda continua sendo cinema.

chihiro

A viagem de Chihiro, Hayao Miyazaki (2001)

Vi trezentas vezes e ainda não sei do que se trata – minha aposta mais firme seria: um longa sobre o trabalho; e a família; e a amizade; e o amor. O imaginário mais criativo de Miyazaki.

2046

2046, Wong Kar-Wai (2004)

O final de uma história que não concluí nada e não dá sossego ao seu personagem. 2046 é um filme sobre o passado. Sobre homens e suas paixões. O filme mais triste da década.

Porque devemos prestar atenção ao hip-hop comercial

Motivo número 1: Porque os holofotes foram desligados.

Quando eu era mais novo eu me incomodava bastante com os comerciais de perfume. Até hoje é algo que nutro algum desprezo. Talvez porque o que via ali era uma petrificação de aparências. Me lembro de sentar sobre meus calcanhares a frente da televisão e encarar um universo muito perverso. Costumava sentir um alívio enorme quando a propaganda acabava.

Talvez isso explique a distância que eu sempre mantive do hip-hop que foi canonizado durante um longo período da década passada. Eu sempre fui mais do rock do que do pop. Muito porque eu sempre consegui criar simpatia pela lógica do rock. Havia muita paixão – às vezes beirando o ridículo. Nos clipes de hip-hop que assistia na MTV ou no Multishow, tudo o que eu via era o mesmo glamour petrificado dos comerciais de perfume.

Acontece que, de uns tempos para cá, o hip-hop desceu do salto e percebeu que a vida de aparências era apenas parte de uma ficção. Os holofotes haviam sido desligados, faltava abrirem as cortinas.

“All my young boys ‘round me saying, “Get money and fuck these hoes”
Where we learn these values? I do not know what to tell you
I’m just trying to find a reason not to go out every evening
I need someone that’ll help me think of someone besides myself”

(Girls love Beyonce, single novo do Drake)

Motivo número 2: Porque as cortinas caíram e não sobrou pedra sobre pedra.

Desde o boom de influência do R&B nas interpretações dos artistas de hip-hop, tornou-se impossível soar imune às próprias palavras. O que aconteceu é que a presença de um elemento mais meloso e melancólico, empurrou esses mesmos artistas a utilizarem um discurso mais direto.

Ou seja, o novo grande atrativo é de uma simplicidade enorme. Honestidade. Reconhecer que o mundo que vivem é cruel, mesquinho e vazio. É, antes de tudo, capaz de engoli-los na própria fama. O monstro tornou-se o tão amado holofote.

Agora consigo me aproximar mais dos seres humanos por trás de suas mulheres, carros e colares de ouro. E isso, no entanto, não os fez menos artistas. Pelo contrário, cada vez mais, essa lógica corrosiva faz parte do linguajar do hip-hop como recurso de estilo e desconstrução de clichês do gênero.

Os comerciais de perfume continuam sendo um pesadelo para mim. Porém, tornou-se possível encontrar algum sinal de humanidade nos grandes charts. Agora vejo homens com medos e paranoias comuns. E a coragem de dizer que os carrões e as mansões não suavizam a sensação de eterna solidão do show business.

 “I can give a fuck ’bout no hater
Long as my bitches love me
I can give a fuck ’bout no niggas
Long as these bitches love me”

(Bitches love me, Lil Wayne)

Aquilo que é tão incoerente em música

Em breve, vocês verão um chuva de resenhas que tentaram prová-lo que Overgrown – o novo álbum do compositor britânico, James Blake – é um dos melhores discos do ano, talvez o melhor.

Eu poderia estar entre esses sujeitos monótonos e apaixonados (afinal, esta poderia ser uma crítica sobre o álbum), que devem ter gastado tanto tempo quanto eu ouvindo e ouvindo o disco novo. Eles devem ter se impressionando com a levada de hummings em Retrograde. E com a percussão seca, típica de hip-hop, em Life around here. Quem sabe tenham se emocionado tanto quanto eu, quando a voz de Blake surge toda fragilizada no meio de Digital lion.

Quanto mais eu o ouço, mais tenho certeza. Este é outro grande disco do jovem. Então, porque hoje, pela manhã quando o sol brilhava no céu, ele me parecia o álbum mais bobo do universo?

Eu não acordei diferente. Foi uma manhã completamente ordinária. Eu acordei por volta de 8 horas. Conversei com o edredom e o travesseiro por cerca de meia hora. Até que, enfim, acordei. Li emails e mensagens no Facebook. Abri o Twitter e vi gente comentando sobre a morte da Dama de Ferro. Bebi leite e comi pão. Voltei ao quarto e li algumas páginas de Juliet, naked.

Nada de especial.

I don’t wanna be a star,
but a stone on the shore;
Long door, frame the wall,
when everything is overgrown.

Há noites em que eu me sinto perdido dentro de um disco de atmosfera pesada como é esse Overgrown. E são noites também totalmente comuns. Vejo filmes, leio alguma coisa na internet, converso com amigos pelo Facebook, me irrito com alguma bobagem no Twitter. E, claro, ouço discos completamente distraído.

Mas há algo sobre noites vazias… Em dias chuvosos, então, não preciso nem comentar.

Talvez, por isso, não devamos levar a música pop tão a sério.

Quando eu vejo um desses escritores de resenhas semanais se esforçando para encontrar grandes significados em discos, eu sinto uma pena enorme. Eu só consigo imaginar um cara chegando em casa – um apartamento “quarto e sala” muito apertado – exausto e sem o menor saco para discutir com a namorada sobre como foi seu dia ou como o atendente do Subway trocou seu sanduíche de frango com teriyaki por um de peito de peru com queijo amarelo.

Aí eu imagino esse cara no alto dos seus trinta anos depois de ouvir 50 discos iguais e caricatos no trabalho, apertando o play no recém vazado álbum do James Blake. É quase babaquice pensar isso, mas acho que o cara deve ter uma realização nos seus ouvidos. Acho que lá no refrão de Retrograde (“So show me why you’re strong, we’re alone now, we’re alone now”), esse adulto que cresceu ouvindo Radiohead e Joy Division, deve ter apertado os fones contra os ouvidos e deve ter agradecido a meio mundo.

E aí, quando sentou em frente à tela fria do computador deve ter pensado: “Cacete, como eu vou explicar tecnicamente isso?”. Numa parte genial de Juliet, naked (o livro que li pela manhã), o protagonista tem uma realização ao ouvir um disco. Ele percebe que grande arte é tão incrível porque nos faz esquecer do nossos problemas, das nossas idiossincrasias e nos traz de volta para o que amamos.

Eu chego a dar risada quando encara um texto em que o sujeito vem me dizer que o disco é particularmente genial porque o artista renova os seus temas, dialoga com a cultura tal ou o seguimento tal. Eu sei que é necessário dizer isso. Mas não há nada sobre Overgrown aí. Overgrown, o efeito. Overgrownm a memória. Overgrown, o instante.

Part time of this life round here
We never done…
Everything feels like a touchdown on a rainy day

Acontece que hoje de manhã quando ouvi o novíssimo disco de James Blake, ele me pareceu o disco mais inocente possível. Criando uma atmosfera cruelzinha e se utilizando de uma eletrônica muito simples para investir em baques sentimentais estéreis. Eu quase abri o wordpress e escrevi um texto típico de um sound designer, falando mal dos discos e defendendo a capacidade criativa do britânico nos EPs (exclusivamente ligados à “cultura do som inglês”).

Aí, aconteceu o improvável. Num dia de sol, eu acabei preso no trânsito debaixo de um início de chuva. Eu não tinha o disco do iPod ainda, mas, por sorte, havia levado o laptop para a faculdade. E foi como entrar no meu próprio apartamento apertado depois de um dia exaustivo.

Estou até agora procurando alguém que me prove que não é maior disco feito pelo ser humano.

O pop bem aqui

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Certa vez um amigo me disse que toda vez que ouvia o rádio – e não eram poucas vezes, afinal ele era obrigado a ouvir durante todo o caminho para o colégio – ele precisava de um antídoto para tudo que há de maligno na música. Eu não sei sobre que música ele falava especificamente – ele podia ter que ouvir uma rádio evangélica ou algo do tipo, vai saber -, mas se eu pudesse escolher um disco para me livrar de  todos os males do mainstream seria este novo do Justin Timberlake.

A começar que a própria imagem do ídolo pop serve para o propósito. Tendo feito parte uma boy band famosa (o NSYNC) e ter tido por um longo tempo a imagem associada a uma lógica apenas de glamour e holofotes, Justin acabou sendo visto por uma geração (da qual faço parte) como apenas mais um ídolo teen: o homem bonito e nada talentoso. No máximo imaginava o cara nadando num mar de cartas de fãs.

Mas Justin provou o contrário. Cresceu, fez a barba, vestiu um terno e bateu de frente com as críticas. Venceu a própria imagem e também se fez através dela. Ele é tão clichê quanto é original. Mas, acima de tudo, se provou um bom ator e, principalmente, um grande músico.

O queridinho da América pareceu entender que seu histórico dava margem ao que ele podia representar. Ou melhor, atuar. “I bring the sexy back” ele avisava no começo do disco de 2006 – numa das suas músicas que, se não é das melhores dele, serve perfeitamente para ilustrá-lo. Quem ouvia o resto do disco, no entanto, encontrava coisas diferentes. Encontrava o artista em sintonia com a própria música. O trovador moderno e descrente. O modelo de comercial de perfume fã de Michael Jackson. O emulador de Prince que guarda um rancor dos amores perdidos. “What goes around, comes around” ele avisava, meio triste, meio furioso.

Timberlake, com ajuda do produtor Timbaland, criou uma sonoridade perfumada, falsamente ousada e sempre, sempre incrivelmente sexy. No caminho, revisitava cuidadosamente alguns dos melhores clichês do R&B, da Soul Music e do Gospel. Ele não apenas colava ideias, mas as retorcia, brincava, ridicularizava. Com FutureSex/Lovesounds, ele ajudou a estabelecer uma onda de cantores de R&B preocupados mais com suas músicas do que com seus vocais e refrões.

Se o comprimento do disco de 2006 acabava apontando as suas falhas e excessos, as 10 concisas faixas de The 20/20 Experience não nos deixam escapar em nenhum minuto. “Shake, like you got something to prove” comanda em Let the Groove Get In. Fora a metalinguagem, interpreto isso como um aviso: o pé está na pista de danças, o cérebro nas canções. Não há quase momentos de relaxamento, Justin está sempre usando as ideais ao limite, explodindo canções que podiam conter facilmente 3 ou 4 minutos em longos 7 ou 8 minutos. É como se ele cuspisse na cara da precisão simetrica do mainstream.

Sem refrões simples ou dramaticidade excessiva, quando o sujeito vai ao vocal cumpre o papel de interpretar a canção. Parece idiota dizer isso, mas quando pensamos em um estilo tão histérico como o R&B, logo lembramos de gritos exagerados e interpretações aos frangalhos – do tipo que impressionariam os jurados do The Voice, mas não levantam um pelo sequer do meu braço. Justin representa o que a situação pede. É irônico e sexy em Suit & Tie. Usa falsetto na entoada falsamente romântica de Pusher Love Girl. Vai junto aos solavancos (com gritos e aceleração) com o mantra alucinado de Let the Groove Get In.

Timbaland segue o ator de perto. Diferente do que vemos num disco de Hip-Hop, a faixas não nos acertam com violência, elas vão sutilmente se acolchoando. É como tomar uma pancada de um travesseiro. Dói, mas é macio. Mesmo com 8 minutos, a sensação que fica é de um processo de mastigação. Os dois vão se ajustando dentro das longas durações. Ora explorando quase psicoticamente os samples e as batidas, ora se enfiando num ritmo poderoso.

Tunnel Vision, por exemplo, começa com a repetição curta de um sample vocal que diz “I know you lie”, aos poucos vai ganhando um percussão crua e um som de beatbox. A voz de Justin só entra quando a sala já está toda arrumada. E o sujeito é tão versátil que a impressão é de ouvir duas vozes diferentes. A melhor do disco, a obra-prima Let The Groove Get In, vai por um caminho diferente. Começa quase como um ritual tribal, adiciona camadas e mais camadas à percussão (tive que ouvir diversas vezes para perceber tudo que é criado), mas dessa vez a voz dele entra como se desse continuidade ao fervor ritualístico. A última, uma balada belíssima, nos dá o gostinho do que aconteceria se Radiohead fosse uma banda romântica – e tivesse um vocalista menos perturbado.

Justin é complacente. Não desiste das ideias. Se tivesse criado a pior faixa do mundo, certamente a levaria debaixo do braço ao fim do mundo. Nesse sentido, lembra muito os poemas cantados de Bob Dylan. Não há vergonha em esticar ao limite. Não há porque olhar para trás quando se confia demais no próprio produto.

A imagem novamente afirma: não existe humildade no mundo pop. A cabeça sempre está erguida. As mulheres sempre te querem. O dinheiro nunca falta. Mas o que fazer quando a luz dos holofotes machucam os olhos?

Disco em questão: The 20/20 Experience – Justin Timberlake (2013)

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